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ANDI; Instituto Ayrton Senna; Unicef; Ministério da Educação; NEMP; Fundescola; Consed.

Mídia e Educação
Ano: 
2000

São (e sempre foram) recorrentes nos editoriais da imprensa brasileira as idéias de educação para todos, de educação de qualidade para todos e da necessidade de urgentes investimentos no aprimoramento e qualificação do professorado. Tais “slogans” habitam com naturalidade os últimos parágrafos dos editoriais, sejam eles exigindo combate à desigualdade ou à exploração sexual de crianças e adolescentes, à violência ou à exploração do trabalho (escravo) infantil, ou ainda como trilha obrigatória para o alinhamento do país entre as nações mais desenvolvidas.

Nem sempre, entretanto, essas idéias encontraram (ou ainda encontram) reflexo no comportamento de rotina dos veículos de comunicação. Só muito recentemente o tema Educação passou a ganhar “chamadas” nas primeiras páginas. Só em 1998, segundo a Pesquisa ANDI – Infância na Mídia, o tema chegou ao primeiro lugar no ranking dos assuntos mais abordados pela imprensa – à exceção da cobertura diária de Política e Economia e tendo estado em 8º lugar em 1996.

Ao mesmo tempo, multiplicaram-se as ações educativas das empresas de comunicação. A Rede Globo celebra os 500 anos do país com ênfase jornalística para as experiências bem sucedidas de ingresso e sucesso escolar e com a campanha de voluntariados Amigos da Escola. Os grandes veículos impressos estimulam a utilização de jornais e revistas em sala de aula. O grupo Abril / Fundação Victor Civita edita a Nova Escola - Revista dedicada a instrumentalizar professores e a discutir a Educação. A Fundação Demócrito Rocha (jornal O Povo, Ceará) investe em material de qualificação do professor. As revistas especializadas em empresas., negócios e mercado incluíram Educação e a responsabilidade social das empresas em sua pauta prioritária A Agência Estado articula a Rede Iniciativa, por meio da qual cada veículo-cliente da agência reproduz, sem custos adicionais, as matérias de Educação produzidas pelos demais. São apenas alguns exemplos.

Na verdade, Estado e sociedade elegeram a Educação como tema estratégico – e isso é um fenômeno global. A estabilidade econômica e a proposta de um novo desenho do Estado criaram condições objetivas novas. Inclusive para a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996). Os índices brasileiros, quantitativos e qualitativos, de analfabetismo, evasão escolar, repetência e escolaridade dos jovens são – descobrimos depois de 500 anos – incompatíveis com a cara de um país que se pretende globalizado.

Para informar e mobilizar a população, o Ministério da Educação prioriza a eficiência e a capilaridade de suas ações de comunicação. A sociedade civil organizada – que jamais estabeleceu tamanha parceria com o Estado – criou por sua vez eventos provocativos, tais Geraldinho Vieira Diretor Executivo da ANDI - Agência de Notícias dos Direitos da Infância 6 como os prêmios Itaú-Unicef: Educação e Participação (coordenado pelo Cenpec), o Sócio- Educando (Unicef, Ilanud, ANDI, Fundação Educar, Fundação Kellogg, Ministério da Justiçca e BNDES) e o Professor Nota 10 (Fundação Victor Civita). São, igualmente, apenas alguns exemplos.

Especificamente para a imprensa, consolida-se a importância do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo e do trabalho da ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância. Os mais importantes jornais e revistas do país organizam-se de forma diferente para a cobertura de toda esta mobilização em torno da Educação. Para uns a reportagem de Educação compete no dia-a-dia com os demais fatos, outros criaram espaços especiais (cadernos semanais, páginas fixas...).

No primeiro caso, muitas reportagens correm o risco de ficar “na gaveta” porque – segundo vários editores - não superam o “calor” do noticiário factual das editorias de Cidades (ou similares). São as reportagens que buscam maior reflexão sobre o tema. Tal situação parece estar em processo de mudança. Sob este risco, publicam-se prioritariamente as matérias provocadas sobretudo pelos anúncios (factuais) oficiais e, em muitos e muitos casos, os releases produzidos pelas assessorias de comunicação das secretarias estaduais e municipais. Os releases trazem informações relevantes, mas quando os jornais limitam-se a cobrir Educação através dos releases sem uma repercussão local, perde-se a capacidade de ampliar a reflexão.

No primeiro caso, ainda, fica estressada a relação entre repórteres mais ideologicamente dedicados ao tema e seus editores – nem sempre contaminados por alguma forma de insensibilidade social, mas limitados pela temperatura das notícias.

No segundo caso, é comum que decisões oficiais anunciadas anteriormente (e editadas factualmente pelo mesmo veículo) sejam debatidas com maior profundidade nos espaços específicos da Educação. As reportagens que necessitam maior criatividade na pauta e maior dedicação e tempo para apuração e edição ganham e abrem espaço para o pensamento e a prática dos demais atores envolvidos: professores, alunos, pais, comunidade, pedagogos, psicólogos e organizações da sociedade civil.

As editorias específicas promovem maior qualificação de editores e repórteres para a cobertura do tema. As experiências revelam facilidade de sustentação financeira dos cadernos, com grande variedade de anunciantes.

No primeiro caso, a Educação seria um fato e, tratada desta forma, passaria a adquirir status político correspondente ao das demais demandas sociais – o que não deixa de estabelecer uma fricção criativa entre as prioridades políticas, tanto para o jornal quanto para seus leitores.

No segundo caso, o jornalismo aproximaria-se de vencer o desafio de possibilitar que a Educação seja abordada também como processo.