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Esta publicação é uma realização da ANDI e do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde.

Mídia e Drogas - O perfil do uso e do usuário na imprensa brasileira
Ano: 
2005

Apresentação

Esta publicação é fruto de parceria entre a ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, com a colaboração de jornalistas, pesquisadores, redutores de danos, profissionais de saúde e usuários de drogas.

Reunidos no Seminário Mídia e Drogas – O perfil do Uso e do Usuário na Imprensa Brasileira, que ocorreu nos dias 16 e 17 de agosto de 2004, em Brasília, esses diferentes atores sociais refletiram sobre como os veículos de comunicação têm abordado esse tema e como poderiam aprimorar a qualidade da sua cobertura. As reflexões foram baseadas em pesquisa quanti-qualitativa realizada pela ANDI e pelo Ministério da Saúde, que analisou a produção editorial veiculada entre agosto de 2002 e julho de 2003 por 49 grandes jornais brasileiros, três revistas de circulação nacional e 22 veículos da chamada Mídia Jovem (mais detalhes sobre a metodologia de pesquisa na Introdução, a seguir).

Longe de confluir para um discurso único, resultado da polêmica que o tema costuma gerar, os debates serviram para reforçar ainda mais as convicções – essas sim, unânimes – de que a sociedade precisa discutir mais e profundamente a presença das substâncias psicoativas no contexto de vida de seus cidadãos. Para isso, entretanto, é fundamental abrir mão de preconceitos, buscando acessar as múltiplas visões existentes sobre a questão e encarando o usuário como um sujeito de direitos e deveres.

Da Reflexão à Ação
Todos os participantes do seminário receberam previamente um documento provocador, que também serviu de base para a presente publicação. Na abertura do evento, contaram ainda com as falas contextualizadoras de Soninha Francine, jornalista e hoje vereadora pelo PT, na cidade de São Pauo; do senador da República pelo PDT do Amazonas, Jefferson Péres; de Carlos Eduardo Vasconcelos, Procurador Regional da República, e dos pesquisadores Edward McRae e Alba Zaluar. A partir desse conjunto de informações, os participantes reuniram-se em nove grupos de trabalho, que discutiram aspectos centrais para a compreensão desta complexa temática:

  • Direitos e Cidadania.
  • Imagem dos Usuários e das Drogas na Mídia.
  • Distintas Abordagens do Tema Drogas.
  • Descriminalização e Legalização.
  • Saúde Pública x Política Repressiva
  • Outras Políticas Públicas.
  • Prevenção.
  • Tratamento.
  • Redução de Danos.

Cada grupo era formado por jornalistas, especialistas e usuários de drogas. Após receberem um roteiro de discussão, com sugestões de questões essenciais que deveriam ser respondidas, os grupos eram orientados a produzir, ao longo de seus debates, recomendações que pudessem apoiar tanto jornalistas como fontes de informação para a construção de uma abordagem editorial mais qualificada do assunto.

Por novas políticas
Uma das riquezas proporcionadas pelo processo de elaboração deste documento é o reconhecimento, por parte dos mais diversos atores envolvidos, da dificuldade de se falar claramente sobre Drogas em nosso País e da urgente necessidade de socialização do conhecimento sobre o tema. Se esta publicação está em suas mãos, significa que você, de alguma forma, pode contribuir para que a questão das Drogas seja vista de uma maneira diferente daquela hoje predominante.

Entendemos, por outro lado, ter o Brasil condições concretas de avançar rumo a políticas muito mais eficientes e humanas do que as centradas na perspectiva de guerra às drogas. Políticas que, por exemplo, reconhecem o usuário enquanto sujeito de direitos e deveres; admitem a possibilidade de que a abstinência nem sempre é possível; abrem espaço para os programas de Redução de Danos; aceitam o fato de existirem vários tipos de usos de drogas (do recreativo à dependência). Em síntese, que não ignoram as questões sociais, econômicas, políticas e culturais que permeiam esses diversos usos.

Virando a página
Diante do papel central da mídia na construção de um debate público efetivo no que se refere à consolidação das prioridades da agenda social, acreditamos que o fato de vozes hoje muitas vezes abafadas pelo preconceito e pela ignorância passarem a ter sua vez na imprensa contribuirá não apenas para uma reflexão mais madura e equilibrada de toda a sociedade, mas para a real implementação dessas novas políticas em relação às Drogas.

Nesse sentido, consideramos especialmente importante trabalhar para deslocar a cobertura do uso de drogas das páginas e programas de cunho policial, quase sempre pautados por uma abordagem sensacionalista e vinculada à violência. Esses espaços constantemente reforçam o estigma que cerca os usuários e desviam o foco dos verdadeiros fatores que podem ocasionar a procura pelas substâncias psicoativas.

Esperamos, portanto, que esta publicação venha a facilitar a prática cotidiana daqueles profissionais que vêm ajudando a fortalecer, nas redações brasileiras, os parâmetros de um jornalismo socialmente responsável. Ao mesmo tempo, confiamos ser este, também, um instrumento de grande utilidade para todos os atores sociais que reconhecem na comunicação um importante elemento de transformação de consciências.

Finalmente, vale lembrar que este documento não pretende, de forma alguma, esgotar o universo temático de tamanha abrangência e complexidade. O entendemos, isto sim, como uma introdução ao debate sobre as muitas interfaces existentes na relação da mídia com a questão do uso de drogas.

Boa Leitura!