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ANDI e Fundação Banco do Brasil

Mídia e Deficiência
Ano: 
2003

Em meio ao cenário extremamente diversificado e dinâmico das agendas de mobilização dos grupos minoritários da sociedade, tem se destacado, nos últimos anos, um novo ideário: aquele que busca promover e garantir a plena inclusão social das pessoas com deficiência.

Em que pese o fato de colocar em primeiro plano a questão dos direitos de um segmento populacional em particular, o atual paradigma inclusivista estimula, sob o crivo de uma ética da diversidade, uma ampla releitura das relações que regem a construção de uma sociedade democrática, se alinhando no fluxo de um crescente movimento internacional de luta contra todas as formas de exclusão social, das mais explícitas às mais sutis e veladas.

A trajetória evolutiva dos parâmetros norteadores de suas práticas e posicionamentos políticos – em processo de continua atualização e reinvenção – resulta em um arrojado elenco de propostas que hoje encontra expressão na pauta de trabalho de diferentes agências da Organização das Nações Unidas, e também avança, no caso do Brasil, na formulação de políticas públicas de amplitude nacional, como ocorre na área de educação.

É de conhecimento geral, entretanto, que esse significativo alargamento das fronteiras conceituais do universo dos Direitos Humanos gerado pelo modelo inclusivista não tem se traduzido, nem na abrangência, nem no ritmo desejados, em oportunidades mais justas e equânimes de participação social para as pessoas com deficiência. Historicamente atingidas por graves formas de segregação, em nosso País essas pessoas seguem, em grande parte, invisíveis à maioria das recentes conquistas da cidadania.

O papel da imprensa

É em meio a esse quadro desafiador que o presente projeto desenvolvido pela Fundação Banco do Brasil e pela ANDI – Agência de Notícias dos Direitos da Infância, busca operar. Acreditamos que apenas com o envolvimento dos diversos setores da sociedade em um debate continuado sobre as questões centrais relacionadas à deficiência será possível reverter o impacto dessa herança discriminatória. Daí a importância fundamental dos meios de comunicação de massa, enquanto agentes facilitadores dessa troca de informações.

As redações brasileiras, entretanto, não se encontram hoje qualificadas para este papel estratégico: da mesma maneira que ocorre em relação a outras questões prioritárias da agenda social, os profissionais de jornalismo sofrem com a ausência de um processo consistente de capacitação para a cobertura da pauta da deficiência. A lacuna tem origem no currículo defasado da grande maioria das faculdades de comunicação e se nutre da falta de interesse das empresas. Ambos os fatores contribuem de forma marcante para impulsionar a engrenagem da exclusão que cerca as pessoas com deficiência.

Isso não significa que faltem exemplos de bom jornalismo social na imprensa brasileira. A ANDI, que desde 1992 acompanha muito de perto o trabalho dos meios de comunicação das diversas regiões do País, regularmente tem a oportunidade de registrar a veiculação de expressivas contribuições da imprensa para o enfrentamento das mazelas que colocam em risco o desenvolvimento de nossas crianças e adolescentes. O problema é que na maior parte das vezes essas matérias ainda são mais o resultado dos esforços individuais do que de linhas editoriais consolidadas.

Para que a imprensa venha a desempenhar com eficiência o papel que lhe cabe no processo de construção de um País menos vulnerabilizado pelas injustiças sociais, será necessário, portanto, que se cristalize uma cultura jornalística suficientemente madura para pensar as questões inerentes ao desenvolvimento humano e à inclusão social como abordagem transversal à cobertura oferecida a todas as grandes temáticas nacionais.

Instrumento de transformação

As páginas de Mídia e Deficiência procuram oferecer a jornalistas, a estudantes, a professores de ComunicaçãoSocial e aos atores sociais da área da deficiência elementos que contribuam para a multiplicação e o aprimoramento do espaço dedicado aos direitos das pessoas com deficiência. Vale lembrar, ainda, que tanto quanto os profissionais de imprensa, esses atores sociais – governamentais, do setor privado ou da sociedade civil – são entendidos ao longo do texto a seguir como personagens prioritários no processo de democratização e de qualificação da informação.

O presente volume teve como ponto de origem uma análise aprofundada, de cunho quanti-qualitativo, sobre o tratamento dado pela mídia impressa brasileira aos diversos aspectos relacionados ao tema da deficiência. Elaborada por uma equipe de profissionais de jornalismo e consultores especializados, esta análise reconhece os méritos e diagnostica os principais problemas da cobertura. Fiel a seu teor propositivo, procura também apontar caminhos para que as redações possam responder à altura os muitos desafios colocados pela questão, que envolvem da discussão de preconceitos à investigação de políticas públicas.

Precisamos relembrar aqui, finalmente, que os direitos à educação, à saúde, ao convívio social, ao lazer, estão todos assegurados pela Constituição Brasileira – e que se aplicam a cada um dos cidadãos do País. Esta é a chave do problema: entender que pessoas com deficiência são cidadãs.