Skip to main content

Entrevista

2 de Maio de 2011
Entrevista: Para Jaime Abello, da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, falta correspondência entre valores e práticas de RSE por parte das empresas de mídia

Em visita ao Brasil, Jaime Abello, diretor geral e co-fundador da FNPI (fundação colombiana criada por Gabriel García Márquez) destacou alguns dos principais elementos que orientam a agenda da autorregulação da mídia na América Latina e as articulações globais em torno do tema.

Quais são, na atualidade, os principais desafios que enfrentam os meios de comunicação e, em particular, o jornalismo?

Acredito que temos entrado em uma fase de profundo questionamento acerca da legitimidade dos meios de comunicação, da forma como nós os conhecemos. Esse problema se manifesta de muitas formas. Desde a maneira como o público interage com a mídia – cada vez mais exigente, com uma abordagem de denúncia e, muitas vezes, até de acusação quanto à falta de clareza ou de transparência. De outro lado, há uma tentativa expressa de alguns países de solucionar os problemas pela via da regulação.

Este diagnóstico é cada vez mais claro. As Nações Unidas e a OEA têm chamado a atenção para o tema. Um exemplo é o relatório Nuestra Democracia, de Dante Caputo (OEA) e José Antônio Ocampo (PNUD), que foi apresentado na Cidade do México em outubro de 2010. Na publicação – realizada a partir de uma ampla consulta a centenas de especialistas da América Latina, como líderes políticos, pesquisadores, etc. – há uma defesa de que as empresas jornalísticas devem assumir compromissos públicos em que prevaleçam a transparência e o pluralismo, tanto no que se refere à informação sobre a propriedade dos meios quanto sobre as linhas de pensamento que defendem ou promovem.

Quer dizer que estes organismos estão mais atentos à necessidade de transparência por parte dos meios?

Há uma mudança. Estas instituições intergovernamentais estão se pronunciando com um tom um pouco mais forte que de costume em relação aos meios de comunicação. Por um lado, o relatório afirma que “a autorregulação da imprensa e dos meios de comunicação é importante para melhorar a qualidade da informação que se oferece aos cidadãos, tanto em termos de transparência quanto de conteúdos de informação”. E, mais adiante, seguem: “Para assegurar uma relação estreita entre os meios de comunicação, sociedade e a produção de agendas públicas relevantes, é vital o desenvolvimento de uma instância independente de observação dos meios de comunicação (...). Para promover a diversidade de informação e o pluralismo, é importante impulsionar normas e leis que limitem a concentração dos meios de comunicação e informação”.

Tudo isso reflete o que eu disse: a questão da legitimidade. Na verdade, o próprio Rupert Murdoch, o principal dono de jornais do mundo, disse em relatório que foi publicado no encontro do Fórum Mundial de Editores de 2010, referindo-se aos meios tradicionais, principalmente os jornais: “Nosso êxito dependerá do vínculo e da confiança entre nossos leitores e nossos conteúdos, e não de quantas plataformas usamos. Nosso problema não provém da concorrência das novas tecnologias, mas sim da complacência de nossa indústria, entre pessoas que têm desfrutado de monopólios, que têm que competir por uma audiência que antes davam por garantida, que não têm a confiança de sua audiência e que não tem respondido de forma construtiva aos desafios dos leitores – os quais têm deixado de pensar nos editores como oráculos onipotentes.”

Como se relacionam os temas de Responsabilidade Social Empresarial (RSE) dos meios de comunicação com todo esse cenário?

Nós na Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) iniciamos um estudo com 37 empresas e grupos empresariais de mídia de 13 paises latino-americanos sobre conceitos e práticas da responsabilidade social empresarial. Os resultados, publicados no livro La otra cara de la libertad (A outra face da liberdade) mostram que existe um cenário estimulante, com muitas iniciativas e demonstração de interesse por parte das corporações. Entretanto, ainda existe muito espaço para que os processos de RSE sejam aprimorados.

Um aspecto que observamos muito claramente é que se trabalha mais a RSE “para fora” do que “para dentro”, e não necessariamente como parte da estratégia ou da dimensão competitiva do negócio. Existem muitas campanhas e projetos que buscam causar impacto social, sobretudo em campos como o da educação. Por outro lado, existe um abandono quase total – naquele momento, pelo menos, já que estamos falando de um estudo de 2008 – de dimensões internas, como um maior compromisso com a transparência ou a relação com os funcionários, fornecedores e outros.

E quais os principais resultados do estudo?

O estudo constatou que 53% das ações relatadas foram classificadas como iniciativas de filantropia ou Investimento Social Privado, enquanto 47% eram propriamente ações de Responsabilidade Social Empresarial.

É interessante mencionar que há uma disparidade entre as declarações das empresas pesquisadas sobre sua agenda de RSE e o que efetivamente era implementado. Ou seja: por um lado, está o que as empresas querem ou acreditam que estão fazendo e, por outro lado, o que elas realmente fazem. No que se refere à proteção à informação, por exemplo, houve 27 respostas sobre a importância de se trabalhar o tema, porém só constatamos um caso concreto de ação nessa linha. Por isso, são tão importantes os relatórios de sustentabilidade, que permitem mensurar e garantir que as boas intenções correspondam a resultados efetivos.

Como surge o processo de trabalho de criação de indicadores de sustentabilidade para as empresas de mídia?

Essa iniciativa de trabalhar com o Global Reporting Initiative (GRI) na construção de indicadores globais para a o setor de mídia tem muitas ligação com a América Latina. Há vários anos, um grupo de organizações têm trabalhado – a partir da Colômbia, mas também em conexão com as redes do continente como um todo – para fortalecer a discussão sobre a responsabilidade social empresarial dos meios de comunicação.

Para isso, criamos uma aliança reunindo a Fundação Avina, uma organização que possui um alcance continental e que desenvolve trabalho muito importante; o programa de estudos em jornalismo da Universidade Javeriana, do grande pesquisador e intelectual Germán Rey, e a Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, a qual dirijo, que trabalha de forma concreta com a qualidade do jornalismo, desde a sua formação e desenvolvimento profissional, como uma maneira de impulsionar a busca da excelência.

Finalmente acordamos – e nesse processo de reflexão contamos, por exemplo, com pessoas como Wendy Arenas que havia lidado com o tema da responsabilidade social no jornal El Tiempo – que as questões de RSE deveriam se integrar ao coração dos negócios da mídia, como uma parte da estratégia competitiva. Também teriam de avançar para uma forma mais objetiva, com indicadores padronizados, globalmente aceitos em consultas com os grupos de interesses – e não ficar apenas na retórica propagandística ou em relações públicas ao redor dos projetos.

Logo, trabalhamos para aumentar o nível de informação e consciência sobre o tema, entre os executivos e proprietários de meios de comunicação, e iniciamos uma série de reuniões em Buenos Aires, Bogotá, Cartagena e Monterrey. Nesse contexto, decidimos procurar trabalhar com o GRI. Convidamos Ernst Lichtering, diretor da organização, para visitar a Colômbia e desenhamos o projeto, seguindo o processo estabelecido pelas regulamentações já promovidas pelo GRI.

Há uma coordenação de tempo integral, que se encontra em Bogotá e que faz a organização técnica, a secretaria do processo e a organização das reuniões, realizadas em diferentes partes do mundo. Fizemos convocatórias públicas, para sensibilizar os grandes grupos de mídia globais [atualmente participam representantes de Warner Brothers, Vivendi, Berteslmann, BBC, The Guardian, Reed Elsevier, Australian Broadcasting Corporation, Antena 3, Gestevision Telecinco, Gazprom Media Holding], e montamos o grupo de trabalho. Na América Latina, em específico, a ANDI e a Fundação Alisos, da Colômbia, participam como representantes dos stakeholders. Pelo setor empresarial contamos com o grupo Clarín, da Argentina.

Quais são os princípios e valores que sustentam esse trabalho de construção dos indicadores de sustentabilidade?

O ponto de partida das organizações participantes é a convicção de que as empresas de mídia são demandadas, em nossas sociedades, a servirem como plataformas economicamente sustentáveis e independentes; a realizarem um jornalismo profissional, livre e de qualidade; a atuarem como vigilantes dos poderes públicos e a que contribuam com o governo democrático e com o desenvolvimento econômico e social.

Estamos a favor de sistemas de comunicação abertos à concorrência, desconcentrados, pluralistas e diversos, com os quais possam coexistir modelos comerciais, públicos, comunitários, educativos – bem como uma forma que vem adquirindo, pouco a pouco, relevância nos últimos anos, que são as organizações de jornalistas profissionais sem fins lucrativos.

Também acreditamos que os meios de comunicação devem ter claro que, na medida em que demandam transparência e responsabilidade de outros atores (como o governo, os partidos, as empresas privadas ou as organizações da sociedade civil), deveriam igualmente atuar com transparência e responsabilidade diante a sociedade.

Mas, além disso, podemos também acrescentar que os meios de comunicação podem exercer um papel muito importante para o enfrentamento dos desafios da sustentabilidade global. Nesse sentido – conhecendo as experiências em matéria de responsabilidade social de alguns meios –, acreditamos que é possível conciliar objetivos de rentabilidade com uma relação mais próxima com o público.

*Entrevista adaptada de apresentação realizada no evento “Indicadores de sustentabilidade para o setor de mídia na América Latina” (Brasília, outubro de 2010), que teve o objetivo de apresentar proposta de indicadores desenvolvida pelo grupo de trabalho global da Global Reporting Initiative para diversos meios de comunicação e stakeholders do continente.
 

Tags
América Latina, Responsabilidade Social da Mídia, Políticas de Comunicação, Autorregulação, Políticas Públicas de Comunicação ver todas as entrevistas>>

Adicionar comentário

CAPTCHA
Para evitar a entrada automática de SPAM no site, é necessário identificar a imagem abaixo.
Image CAPTCHA
Entre os caracteres exibidos na imagem.
SDS - Ed. Boulevard Center / Bloco A / Sala 101 - Brasília - DF / 70391-900
Fone: (61) 2102 6508 | Fax: (61) 2102 6550
Licença Atribuição-Uso não-comercial 3.0 Brasil
Logotipo Fábrica de Ideias