Cuidados na Edição
Cuidados ao Redigir ou Editar a Matéria
1. Use as expressões adequadas
A cobertura de qualidade não ignora a violência cometida contra crianças ou adolescentes, mas apresenta um discurso ético e contextualizado, com linguagem adequada. Veja em nossa seção Tira-Dúvidas algumas expressões que devem ser evitadas e quais os termos recomendados.
2. Amplie o foco da abordagem
Não se limite a relatar apenas o factual. Procure mostrar que a violência sexual está ligada a questões de gênero, classe, raça/etnia e orientação sexual, como também pessoas com deficiência. Investigue as razões. Estudos apontam que esses casos podem estar associados a outras situações de violência.
3. Utilize os números com sabedoria
Apesar da alta subnotificação e da fragilidade das estatísticas oficiais, é possível achar dados confiáveis - fontes de pesquisa, por exemplo - junto a organizações governamentais e não governamentais. Mas não fique somente na citação dos números: procure avançar na leitura crítica das situações. Uma boa reportagem sobre violência contra crianças e adolescentes deve incluir variáveis que apontem razões para que as taxas se encontrem em determinado patamar ou estejam melhorando ou piorando. Analise os investimentos previstos e a execução dos orçamentos federal, estadual e municipal, destacando o percentual aplicado em ações de combate à violência contra crianças e adolescentes. Se possível, estabeleça comparativo entre o que a lei determina e o que a realidade dos números aponta (disponibilidade de recursos para funcionamento adequado dos Conselhos Tutelares, por exemplo, ou de outros equipamentos essenciais na garantia dos direitos dessa população).
4. Fuja das abordagens sensacionalistas
Evite descrições minuciosas e desnecessárias da violência sexual, com matérias focadas diretamente na exibição do horror. Sensacionalismo torna a matéria pobre e contribui para revitimizar as crianças e adolescentes. E há mais: esse tipo de enfoque gera na sociedade um sentimento de impotência ou de tolerância, além de banalizar ou naturalizar o problema.
Lembre também que o sensacionalismo contribui para estigmatizar a pessoa vitimada, além de reforçar a ideia para a população de que a violência sexual se constitui de fatos isolados e escabrosos, fora de um contexto que influencia a situação.
5. Busque a abordagem positiva
Na reportagem, não se limite a mostrar somente a tragédia pessoal e social. Para que não fique uma sensação de desesperança na opinião pública, procure dar destaque, também, às ações de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, bem como às medidas necessárias para a recuperação do trauma - acompanhamento físico, psicológico, afetivo e social, além da restauração de seus direitos.
Dê destaque a boas práticas no campo do atendimento (experiências desenvolvidas por OGs ou ONGs nesta área); do jurídico (decisões inéditas que apontem para o fim da impunidade) ou ainda na área da segurança pública (desbaratamento de redes de exploração sexual, prisões, ou referenciar o trabalho realizado por Delegacias Especializadas). É importante identificar e divulgar projetos realizados por escolas públicas ou particulares que apresentam um papel relevante nesse contexto. Tais fatores são fundamentais para demonstrar que é possível enfrentar e combater esse tipo de crime. Os jornalistas que trabalham em cadernos infanto-juvenis podem fazer matérias educativas, que incentivem as crianças e adolescentes a denunciarem a violência sexual.
6. Sem generalizações
Ao apontar a má conduta de membros de corporações ou autoridades, lembre-se que se existem pessoas corruptas, há também outras sérias e comprometidas na defesa dos direitos de crianças e adolescentes, bem como na prevenção da exploração e punição dos envolvidos.
7. Escape do maniqueísmo
Escrever sobre atos violentos exige certo distanciamento do repórter. Não invista no desenho de perfis como o de vilão ou de herói da reportagem, para não comprometer um debate público mais produtivo em torno do assunto.
8. Seja específico
Todo dado divulgado deve vir acompanhado da fonte de pesquisa (instituição responsável pela apuração), o ano da realização do estudo e o recorte etário, além do tipo do estudo - se de corte quantitativo, amostral, qualitativo etc.
9. Sensibilidade na abordagem do personagem
Um personagem pode ser, em algumas ocasiões, a tradução viva do problema e um recurso para driblar a escassez de estatísticas. Mas, ao lidar com uma criança ou adolescente vítima de violência sexual, tenha cuidado para não revitimizar (fazer reviver a situação de violência) um ser que está em processo de desenvolvimento e que circunstancialmente encontra-se em situação vulnerável.
10. Consulte sempre a legislação sobre o tema
Há toda uma legislação que contempla a violência sexual contra meninos e meninas. O Estatuto da Criança e do Adolescente deve ser a grande referência para que se possa visualizar a vítima como um sujeito de direitos e pessoa em condição peculiar de desenvolvimento. Nesta legislação também constam as infrações administrativas e crimes previstos para essa forma de violência. O Código Penal define também as punições para os agressores. Não esqueça: a tipificação do crime (utilização da terminologia correta) evita a descrição ou o detalhamento do ato violento, o sensacionalismo, além de favorecer a elaboração de um discurso jornalístico coerente.
11. Seja responsável
A proteção à criança e ao adolescente é responsabilidade de toda a sociedade. O jornalista deve fazer a sua parte ao buscar informações que levem à prevenção, à punição do agressor e à ação das instituições de proteção e atendimento das vítimas. Por outro lado, seja cuidadoso ao divulgar informações sobre parentes ou residência do agressor, uma vez que isso pode resultar em ameaças à vida e à segurança dessas pessoas por parte de vizinhos indignados com o episódio.
12. Reflita sobre o papel da mídia
Apesar de ainda apresentar algumas deficiências graves na cobertura, de maneira geral a mídia tem sido uma aliada estratégica para o enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Isto quando oferece informação de qualidade à população sobre o tema, exerce controle social sobre as políticas públicas para solucionar o problema e coloca o assunto entre as principais questões de interesse público.
É fundamental estar atento para a influência da mídia sobre a maneira como a sociedade enxerga meninos e meninas. É preciso levar a população a refletir sobre como os meios de comunicação, em especial nos produtos de entretenimento, influenciam fortemente os padrões de comportamento do público infantojuvenil e podem, muitas vezes, contribuir para uma erotização precoce, ou mesmo reforçar aspectos da cultura que favorecem a violência sexual.



