Radicais Livres
Ano IX - nº378 - Março de 2005

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Caro jornalista,

Em busca de pautas que retratem a realidade de seus leitores, alguns suplementos de Mídia Jovem apresentaram em março matérias sobre a mudança no comportamento dos jovens provocada pelas novas tecnologias. O Megazine, de O Globo, do Rio de Janeiro, fez reportagem sobre os conflitos que surgem na escola com o uso de telefone celular por adolescentes em sala de aula e, em outra edição, aborda os ciúmes entre namorados provocados por comentários deixados no Orkut para os parceiros. Essa temática é importante porque provoca um debate sobre situações que fazem parte da vida dos jovens e que causam estranhamento para os adultos. Especialistas ouvidos pelo Radicais Livres explicam que é comum os mais velhos olharem com negativismo assuntos que ainda não conhecem.

Nas colunas de consulta, dúvidas sobre sexualidade são as mais comuns encaminhadas por adolescentes aos jornais. O que se nota é que os veículos que contam com consultoria de um profissional, geralmente da área de medicina ou psicologia, oferecem aos jovens leitores respostas que servem não apenas para orientação em um caso específico, mas também como formação, uma vez que as respostas ajudam o jovem a se questionar sobre seus posicionamentos em relação ao machismo e à homossexualidade, por exemplo.

Atentos ao seu público, formado por muitos estudantes que anseiam por uma vaga na faculdade, os veículos Mídia Jovem trouxeram uma gama de informações sobre novas oportunidades profissionais. Entre as alternativas, destacam-se os cursos de meteorologia, design de games e confeitaria.

Jovens do Big Brother

Da mídia impressa à telinha, a seção Antenados traz uma análise sobre a quinta edição do global Big Brother Brasil. Apesar de chamar a atenção de todas as faixas etárias, é entre jovens e crianças que o programa encontra maior receptividade: de acordo com estudo do instituto Multifocus, é o segundo na preferência desses dois públicos. Entrevistada pelo Radicais Livres, a pesquisadora Verônica Eloi de Almeida, autora de tese de mestrado sobre reality shows, afirma que o fato de os participantes do programa serem jovens reforça a exposição de corpos “sarados” pela tevê.

­A criação da Secretaria Nacional de Juventude e o lançamento do programa Pró-Jovem pelo governo federal tiveram pouca visibilidade nos jornais da grande mídia. É o que mostra a seção Políticas Públicas em Foco. Ficou demonstrado que os jornais de circulação nacional restringiram-se mais uma vez às pautas factuais sem o acompanhamento da implementação e resultados de políticas públicas.

Boa leitura!


Relevância Social

No mês da mulher, cresce cobertura sobre gênero

Participação das mulheres no mercado de trabalho e questões estéticas foram lembradas pela Mídia Jovem

A comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, contribuiu para que o tema gênero ganhasse uma cobertura maior nos suplementos de Mídia Jovem durante o mês de março (ver quadro abaixo). No total, foram registradas 12 inserções de matérias relacionadas à questão. Para se ter uma idéia, em janeiro e em fevereiro, houve apenas duas reportagens em cada mês que abordaram gênero nessas mesmas publicações. Das 12 inserções de março, seis fizeram referência ao Dia da Mulher e duas focaram assuntos referentes aos meninos.

Embora tenha havido um crescimento da temática em comparação com os meses anteriores, os veículos de Mídia Jovem ainda dedicam pouco espaço para a questão das mulheres. Das 26 publicações – incluindo revistas e suplementos de jornais – apenas seis se pautaram sobre o assunto em março. Já no caso das revistas, nenhuma das quatro analisadas publicou qualquer matéria sobre gênero ou fez alusão ao 8 de março, sendo que três delas são voltadas ao público feminino.

Os suplementos que dedicaram matéria ou coluna ao dia das mulheres aproveitaram para discutir o seu papel na sociedade. O Zine, do jornal A Gazeta, de Cuiabá, abordou o assunto em duas edições. No dia 6, as duas páginas centrais do suplemento trouxeram matérias que falam da mudança de comportamento das jovens, que estudam, trabalham e querem independência financeira. Na reportagem, a psicóloga Alda Teixeira questiona se essa independência, hoje, muitas vezes não resulta em falta de comprometimento nos relacionamentos amorosos e se isso não as torna mais mercadorias do que antigamente. No dia 13, o colunista Marco Pucci critica num artigo a falta de mobilização das mulheres, mesmo elas ainda sendo vítimas de preconceito.

As conquistas do público feminino foram lembradas na edição de 6 de março do Gente Jovem, do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba (SP). A reportagem ressaltou o crescente número de garotas que trabalham como motogirls, num mercado tipicamente masculino. A matéria demonstra que as mulheres estão quebrando preconceitos sem abrir mão do lado feminino.

A feminilidade também foi tema da edição do próprio dia 8 no Megazine, de O Globo, do Rio de Janeiro, que destacou as diferenças entre o movimento feminino atual e dos anos 1960. Se antes as mulheres queimavam sutiã, hoje a peça é símbolo de sedução. Conforme a matéria do suplemento, a luta pela igualdade entre os sexos está mais focada na busca de espaços para as mulheres do que contra a repressão masculina. O Megazine aproveita a data para lembrar que muitas mulheres continuam sofrendo em nome da estética. Os espartilhos, usados para moldar o corpo feminino e que eram extremamente desconfortáveis, foram substituídos pelas cirurgias plásticas, lipoaspirações e silicone, lembrou a estilista Fafi Vasconcellos, de 26 anos, entrevistada pelo suplemento.

Evolução da cobertura sobre gênero

Outubro/2004

Novembro/2004

Dezembro/2004

Janeiro/2005

Fevereiro/2005

Março/2005

6

1

4

2

2

12


Educação

Resultados do ProUni
Polêmico, o Programa Universidade Para Todos (ProUni), do governo federal, dá mostras de que está agradando os estudantes. Muitos alunos beneficiados têm se desdobrado para ter um bom desempenho na faculdade. Catiane Andrade, 18 anos, que hoje estuda Administração, não acreditava que conseguiria uma vaga. “Fiz vestibular na UFMG e não passei. Como não posso pagar cursinho, ia esperar mais um ano para tentar novamente. O ProUni foi a luz no fim do túnel”, diz. No entanto, ela se angustiou com as dificuldades financeiras e a possível discriminação que poderia sofrer. “O ambiente é bem diferente daquele a que estou acostumada em Ribeirão das Neves. Achei que seria discriminada pelos colegas, o que não aconteceu. Tenho me esforçado e apenas algumas vezes sinto diferença no nível de conhecimento”, diz. A mesma expectativa viveu o estudante de Ciências Contábeis Clayton Oliveira, 19 anos: “Não queria contar que era aluno `ProUni´ para não ser discriminado. Hoje estou adaptado e satisfeito. Além da bolsa, tenho ajuda da prefeitura com o transporte.” Em março, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) entregou suas propostas ao ministro Tarso Genro para a reforma universitária. Os estudantes fizeram passeata pela Esplanada dos Ministérios para a aprovação da reserva de 50% das vagas das instituições públicas de ensino superior para quem vem da escola pública. Segundo Marcelo Gavião, presidente da Ubes, as cotas devem ser por curso e turno, já que em áreas como Odontologia, Direito e Medicina, os egressos de colégios particulares ocupam 90% das vagas”, explica.
(D+/Estado de Minas – MG, 29/3, pág. 6 e 7, Francis Rose, Gabarito/Correio Braziliense – DF, 21/3, pág. 3)

 

Nota ANDI
A reforma universitária tem suscitado debates e reações de pesquisadores e instituições que criticam que a proposta oficial não contempla, por exemplo, qualidade do ensino, produção científica e valorização do professor. O presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, Edson Nunes, considera um equívoco o governo chamar sua proposta de reforma universitária porque, para ele, educação superior é muito mais do que universidade. “A educação superior é muito diversa. Nos Estados Unidos, mais da metade dos alunos matriculados em educação superior estão em cursos curtos, de dois anos. É preciso também ter mais cursos profissionalizantes de um lado e desprofissionalizar a educação superior como um todo”, afirmou em entrevista ao site da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Conforme posição divulgada pelo Conselho de Graduação da Universidade de São Paulo, o projeto do MEC desqualifica o conhecimento e esvazia a autonomia universitária. Em carta encaminhada ao ministro da Educação, Tarso Genro, a SBPC afirma que implementar políticas públicas não é função da universidade. “Mesmo concordando que antes deva, quando possível, procurar integrar-se à comunidade de sua região sede, defendemos que ela deva preocupar-se com a boa formação de seus alunos e com a produção de conhecimentos em seus laboratórios de pesquisa. Estes devem ser estimulados mesmo se, por vezes, não revelem aplicação imediata.” De acordo com o ministro, o projeto de reforma universitária levará em conta as contribuições recebidas das instituições, da comunidade acadêmica e organizações sociais durante os 12 meses de debates. No dia 15 de abril, o MEC encaminha à Casa Civil novo documento com o anteprojeto da reforma.

 

Escolha profissional
Na escolha profissional, nem sempre a vocação fala sozinha. Pesam também o exemplo ou a influência da família e a facilidade de ter alguém que conhece a área. “Não há problema em seguir a carreira dos pais. Mas não se deve escolher só por isso”, diz a psicóloga Germana Pessoa, que trabalha com orientação vocacional em João Pessoa (PB). O psicólogo Luiz Amaral afirma que há situações em que o filho, por ter uma personalidade desafiadora, segue a carreira do pai mesmo se a influência for negativa. “Nesses casos, o que acontece é uma competição. Mesmo sem gostar, o filho acaba seguindo os passos do pai para mostrar que pode ser melhor”. Segundo o psicólogo, a escolha errada pode criar quadros psicopatológicos, como ansiedade e depressão ou até mesmo doenças como dermatites, gastrites e úlcera. O professor de educação física José Marcos Filho cursou quatro anos Engenharia Mecânica por pressão do pai. O processo de mudança foi traumático. “Fiquei um bom tempo sem falar com meu pai. Até que um dia ele entendeu a situação e conseguimos conviver numa boa”, conta. Na coluna Papo Psi, a psicóloga Teresinha Basso afirma que escolher a profissão significa fazer um projeto de vida. “É um momento muito importante, que se refletirá na totalidade da vida”.
(Papo Cabeça/Correio da Paraíba – PB, 6/3, pág. 1 e 2, Bosco Filho e Teresinha Basso)

 

Cursos diferentes
Antonio Martins Teoli, 19 anos, lembra que assustou toda a família ao prestar vestibular para design e planejamento de games. Hoje, é responsável pela trilha e efeitos sonoros em uma empresa de games. A Universidade de São Paulo oferece o curso de engenharia de petróleo, que terá sua primeira turma formada em 2006. Henrique Amaral de Almeida, 18 anos, é aluno de panificação e confeitaria na Universidade Anhembi Morumbi. Filho de uma dona de bufê, ele viu uma chance de se destacar no setor. “Meu pai não curtiu no início, mas agora me dá força”. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o meteorologista Dayan Diniz de Carvalho presta serviços para o Instituto de Águas de Minas Gerais. Sua função é controlar bacias hidrográficas para evitar enchentes. “Quem quer ser meteorologista precisa amar os números”, diz. Ajudar a profissionalização do surfe é um dos objetivos da especialização em gestão e treinamento no surfe/boardsports do Instituto Catarinense de Pós-Graduação, em Florianópolis. O professor de educação física Eduardo Kawabata da Silva, 25 anos, é um dos alunos. “Surfo há dez anos, e esse curso tem tudo a ver com o que penso para o futuro. Quero montar uma escolinha de surfe. Um dia o mercado esportivo do surfe vai ser tão grande quanto o do futebol”, afirma. A Unipran (Universidade da Prancha), em Santos (SP), também oferece pós-graduação em surfe e esportes com prancha há três anos.
(Folhateen/Folha de S. Paulo-SP, 7/3, pág. 6 e 7, Érika Sallum; D+/Estado de Minas-MG, 15/3, pág. 3, Ana Carolina Seleme; Folhateen/Folha de S. Paulo-SP, 14/3, pág. 6, Alessandra Kormann)

 

“Estude nos EUA”
A Embaixada dos Estados Unidos quer que os estudantes de publicidade e propaganda brasileiros criem uma campanha publicitária com o tema “Estude nos EUA”. Além do prêmio em equipamentos, a faculdade em que for criada a campanha vencedora receberá a visita de um professor norte-americano especialista em propaganda e marketing para palestras e oficinas. Com isso, o governo dos Estados Unidos quer mostrar que está comprometido com os intercâmbios educacionais. A secretária de Estado dos EUA, Condellezza Rice, declarou que seu país pretende estabelecer uma interação com o mundo na “forma de uma conversa e não de um monólogo e os Estados Unidos devem manter as portas abertas para visitantes, trabalhadores e estudantes de todo o mundo”.
(Zine, A Gazeta/MT, 6,3, pág. 2, Khadine Novaczyk)

 

Nota ANDI
No início dos anos 70, o mundo conheceu um fenômeno chamado brain drain, em tradução literal, drenagem de cérebros. O processo consistia na migração de jovens de países pobres para as grandes potências em busca de estudo e estabilidade. “Hoje existem mais físicos indianos na Europa do que na Índia”, exemplifica o professor de Sociologia da Comunicação da Universidade de Brasília Luiz Martins. O diretor-presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, Simon Schwartzman, lembra que o Brasil foi o país que menos sofreu com o fenômeno porque a maioria dos brasileiros que ia estudar fora voltava. De acordo com a assessoria de imprensa da Embaixada dos EUA, não há nenhuma espécie de incentivo para que os alunos – público-alvo da campanha – continuem naquele país após sua formação. Schwartzman Considera compreensível o concurso americano e que é comum também iniciativas nesse sentido em outros países. Ele ressalta que os EUA perderam muitos estudantes estrangeiros devido a restrições e controles que passaram a vigorar após o atentado de 11 de setembro. “Estudar no exterior era, e continua sendo, um aspecto muito importante para o fortalecimento da educação e da ciência no País, pela formação das pessoas e pelas possibilidades de intercâmbio que se criam”, afirma Schwartzman. Diante da contextualização apresentada pelos especialistas, fica claro que faltou ao suplemento oferecer um quadro mais amplo que fornecesse aos jovens leitores condições de avaliar o concurso divulgado.

 

Vida de calouro
Quase dois mil alunos aprovados no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) se prepararam para encarar a vida universitária. Wanderson Melo, 18 anos, e outros colegas vivem uma fase de euforia e apreensão. “Estamos muito empolgados porque lutamos para estar aqui”, afirma ele. Giovanna Salomão, 18 anos, do curso de estatística, acredita que a graduação será mais fácil que a escola. “A gente vai estudar o que gosta”, diz. A chegada à universidade remete a outro tema que gera ansiedade nos jovens: o trote. As histórias de abusos na recepção aos calouros levaram muitas instituições a combater essa prática. Na UnB, o esforço para impedir ações violentas ou humilhantes é intenso. O Diretório Central dos Estudantes DCE da Universidade realiza a Semana da Calourada, com atividades artísticas e integradoras. Os cotistas terão um evento especial com palestra do Coletivo de Estudantes Negros do DF e Entorno.
(Gabarito/ Correio Braziliense, 14/3, pág. 4, Priscilla Borges)

 

Nota ANDI
Nos últimos anos, trotes violentos marcaram a recepção de calouros em universidades brasileiras, inclusive com mortes de estudantes. Preocupadas com as ações de violência e humilhação, muitas faculdades começaram a incentivar atividades que promovam a solidariedade e a integração entre os alunos. Em 1997 surgiu a idéia de criar o Trote da Cidadania, projeto atualmente desenvolvido pela Aliança Brasil Universitário, que reúne o Faça Parte - Instituto Brasil Voluntário, a Fundação Educar Dpaschoal, o UniEthos, com apoio da Consultoria Neurônio. O objetivo é estimular os calouros a desenvolverem projetos de alcance social e que tenham continuidade mesmo depois do trote. Este ano, o Trote da Cidadania sugeriu a realização de projetos com a temática Metas do Milênio. Estudantes de 18 universidades do País receberam oficinas de capacitação em fevereiro. Os melhores projetos são premiados. A coordenadora da área de Projetos da Fundação Educar, Maria Eugênia Sosa, afirma que embora a maioria dos trotes de cidadania ainda enfatize o assistencialismo, como a distribuição de alimentos ou a doação de sangue, já surgem medidas mais criativas e que tenham relação com a futura profissão dos calouros. Segundo ela, 29% das faculdades dão continuidade às ações sociais depois dos trotes. Ela diz que os calouros são bastante receptivo às propostas de solidariedade. “Muitos chegam assustados com a violência dos trotes e 47% aderem à iniciativa”.

 

Projetos de trabalho e renda
A prefeitura de São Luís está criando oportunidade de trabalho e renda aos adolescentes atendidos por projetos sociais desenvolvidos pela Fundação Municipal da Criança e Assistência Social, como a Oficina Escola de Marcenaria e o Informante Jovem, que tem parceria com a Secretaria de Turismo. Os projetos atendem jovens de 16 e 17 anos. José Ribamar Souza dos Passos, 21 anos, de uma família de baixa renda, foi aluno da Oficina e três anos depois foi chamado para ser instrutor no projeto. “Estou habilitado a trabalhar em qualquer uma das grandes fábricas do Brasil”, diz. Durante o curso, os jovens têm acesso às novas tecnologias para trabalhar com madeira, noções de desenho básico e geométrico, segurança no trabalho, além das oficinas de formação complementar, que tratam de temas ligados ao mercado de trabalho, cidadania e doenças sexualmente transmissíveis. Depois de participar da primeira turma do Informante Jovem, Daniel Vaz de Abreu trabalha hoje como guia interno no Museu Histórico e Artístico do Maranhão. “O projeto me abriu as portas para o mercado de trabalho e o mundo. Jamais imaginei que fosse trabalhar com turismo e adquirir tantos conhecimentos”, diz. As atividades atendem também às famílias dos adolescentes, que são envolvidas para garantir a permanência do aluno no curso.
(Galera/O Estado do Maranhão-MA, 12 a 18/3, pág. 8, Ernildo Santos)

 

Trabalho

 

Projetos de trabalho e renda
A prefeitura de São Luís está criando oportunidade de trabalho e renda aos adolescentes atendidos por projetos sociais desenvolvidos pela Fundação Municipal da Criança e Assistência Social, como a Oficina Escola de Marcenaria e o Informante Jovem, que tem parceria com a Secretaria de Turismo. Os projetos atendem jovens de 16 e 17 anos. José Ribamar Souza dos Passos, 21 anos, de uma família de baixa renda, foi aluno da Oficina e três anos depois foi chamado para ser instrutor no projeto. “Estou habilitado a trabalhar em qualquer uma das grandes fábricas do Brasil”, diz. Durante o curso, os jovens têm acesso às novas tecnologias para trabalhar com madeira, noções de desenho básico e geométrico, segurança no trabalho, além das oficinas de formação complementar, que tratam de temas ligados ao mercado de trabalho, cidadania e doenças sexualmente transmissíveis. Depois de participar da primeira turma do Informante Jovem, Daniel Vaz de Abreu trabalha hoje como guia interno no Museu Histórico e Artístico do Maranhão. “O projeto me abriu as portas para o mercado de trabalho e o mundo. Jamais imaginei que fosse trabalhar com turismo e adquirir tantos conhecimentos”, diz. As atividades atendem também às famílias dos adolescentes, que são envolvidas para garantir a permanência do aluno no curso.
(Galera/O Estado do Maranhão-MA, 12 a 18/3, pág. 8, Ernildo Santos)

 

Sexualidade

 

“Sou virgem, e daí?”
No meio dos tabus que envolvem a virgindade de meninas e meninos, uma comunidade no Orkut assume: “Sou virgem, e daí?”. Mais de mil meninos e meninas entre 14 e 29 anos se juntaram para falar sobre o assunto e trocar experiências. A moderadora da comunidade, a estudante de comunicação Nani Medeiros, 24 anos, mora em Salvador e acha que a virgindade não devia ser tratada de maneira polêmica. “Dizem por aí que virgem é uma menina feia, de 9 anos, que corre mais do que o primo. Eu dou risada porque esse preconceito é a maior bobagem”, diz a garota, que tem o cabelo pintado de ruivo e um piercing na sobrancelha. Na comunidade, há desde meninas que esperam pelo príncipe encantado a discursos religiosos como justificativas para a virgindade. Para o sexólogo Antônio Carlos Egito, da ONG Grupo de Trabalho e Orientação Sexual, o discurso pró-virgindade pode ser uma resposta à banalização do sexo.
(Caderno Dez!/A Tarde – BA, 24/3, pág. 6 e 7, Carla Bittencourt)

 

Sexo para meninas
“Dicas de sexo para meninas” é o novo programa do GNT, com orientações sobre sexualidade e vai ao ar na virada da noite de domingo para segunda, à 0h30. Com seis episódios, o programa fez muito sucesso no britânico Channel 4 em 2001 e, apesar de ser dirigido para mulheres, o site do canal recebeu mais perguntas de meninos do que de meninas. Não é difícil entender o porquê. Além de orgasmo, masturbação e fantasias, os temas vão de ensinamentos da anatomia feminina a dicas de como encontrar o ponto G (zona erógena da mulher). Para responder as perguntas, são até encenadas situações entre parceiros.
(Folhateen/Folha de S.Paulo-SP, 7/3, pág. 3, Alessandra Kormann; Caderno Dez!/A Tarde-BA, 10/3, pág. 4)

 

Timidez para beijar
Uma garota de 19 anos escreve para a coluna Sexo Verbal, do Caderno Dez!, do jornal A Tarde, de Salvador, para confessar que nunca foi beijada e perguntar o que deve fazer para vencer a timidez. A responsável por essa seção do suplemento é a médica hebeatra Margaret Fialho, coordenadora do Núcleo de Adolescentes em HIV/Aids do Creaids (Centro de Referência Estadual de Aids). Ela responde que a timidez, muito comum na adolescência, é superada com o tempo. E ressalta que a fase de olhar e conversar ajuda a ganhar tempo e confiança para as etapas seguintes.“Ser autêntica, natural, não agir sob pressão, nem queimar etapas é tudo o que há de melhor”, orienta. A médica encoraja a jovem a tentar a fazer o que deseja, mas dentro de seu próprio tempo. Arremata dizendo que não é a idade que define se a pessoa está ou não pronta pra o primeiro beijo, ou “ficada”. Os que começam mais cedo não significa que são melhores que os outros. “Sabe o que importa? O afeto e o desejo, indispensáveis nas relações a dois”.
(Caderno Dez!/A Tarde-BA, 10/3, pág. 3, Margaret Fialho)

 

Nota ANDI
Nos dias de hoje, a pressão para iniciar relacionamentos amorosos é bastante comum entre adolescentes, uma vez que, comparado a décadas anteriores, o tema sexo tem sido tratado com mais transparência e menos tabus, segundo a psicóloga Karina Yamaguchi. Ela explica que, se por um lado, esse fato enriquece o conhecimento do jovem acerca de conhecimento e formação de idéias, por outro, também abre caminho para que informações sejam veiculadas sem a devida cautela. “Exemplos disso são as propagandas, programas e músicas que tratam o sexo de maneira simplista, em que ele é associado a sensações acertadamente agradáveis, sem citar a realidade por inteiro, excluindo as possíveis conseqüências de uma relação sexual, como gravidez indesejada, transmissão de doenças e sentimentos negativos”, diz Karina. Nessa fase, tanto a escola como os pais devem estar atentos na orientação dos adolescentes. Ambos devem esclarecer a relação entre a novidade do sexo na vida de cada um e a insegurança sentida como algo normal. “Tanto os pais quanto a escola devem ressaltar que o jovem é responsável pela repercussão das conseqüências de suas escolhas em sua vida, e por isso deve estar atento ao que pode ou não ser bom para si”, complementa a psicóloga.

 

Ser mãe aos 15
A gravidez atinge 10% das brasileiras de até 15 anos e é um dos três principais motivos que levam as garotas a parar de estudar, segundo dados da Unesco. Gracieli, Suzana e Franciele estão nessa estatística. O sexólogo Théo Lerner explica que, mesmo com informação, muitas meninas continuam pensando que a gravidez não vai acontecer com elas. “Portanto, pensam que não precisam de proteção”. Franciele conta que tomava pílula e não usava camisinha. “Comecei a tomar um remédio para o estômago que cortou o efeito da pílula”, diz. A reação das pessoas ao redor e da família é o primeiro obstáculo, como lembra Gracieli. Segundo ela, quando contou ao namorado que estava grávida, ele disse que não tinha nada a ver com isso. “Depois mudou de idéia e a gente se casou”. Com medo da reação dos pais, muitas meninas tentam o aborto. “Ainda é muito difícil pais e filhos conversarem abertamente sobre sexo. Geralmente, há proibições genéricas do tipo ‘não apareça grávida em casa’ que geram mais ansiedade na adolescente”, diz o sexólogo. Suzana teve problemas com a família. “Minha mãe até parou de falar comigo. Me senti muito perdida, chateada e tentei ‘tirar’a criança tomando um monte de remédios”, afirma. Ela avalia que precisou assumir cedo demais uma grande responsabilidade: “Perdi a melhor fase da minha vida”.
(Revista Todateen – SP, março, pág. 76 e 77, Vivian Peres)

 

Sem experiência
Decepções com sexo na adolescência são freqüentes, principalmente nas primeiras transas. A falta de experiência e até a obrigação de fazer a vontade do parceiro fazem com que o sexo, idealizado pelos jovens como cheio de prazer e satisfação, acaba decepcionando. Uma adolescente de 16 anos, que já transou com dois rapazes até agora, conta que sentiu muita dor quando perdeu a virgindade. Nas transas que vieram depois, confessa que não sentiu prazer. Apenas dor. E fingiu ter orgasmo para agradar o parceiro. No entanto, nem todo menino cai nessa enganação. Um rapaz de 18 anos lembra que, ao masturbar a namorada, percebeu os gemidos falsos. “Foi horrível. Estava na cara que ela fingia”. Outro jovem, de 19 anos, conta que ele e a namorada perderam juntos a virgindade. Sem adotarem métodos preventivos, meses depois, ela ficou grávida. Separaram-se antes de a criança nascer. “Aprendi: sem camisinha, nunca mais. Não estávamos preparados”, diz. Outra adolescente de 16 anos conta que foi péssima a relação que teve com um menino. “Eram dois corpos estranhos que não se conheciam. Ele acabou broxando”.
(Folhateen/Folha de S. Paulo – SP, 21/3, pág. 6 e 7, Erika Sallum e Leandro Fortino)

 

Fuga na religião
Na coluna Sexo & Saúde, do Folhateen, um adolescente de 16 anos escreve para manifestar sua angústia e dúvidas em relação ao desejo de se tornar padre e sobre sua sexualidade. Na resposta, o médico Jairo Bouer afirma que a preocupação na escolha profissional é comum entre os jovens, principalmente porque ainda não se tem experiência de vida acumulada. Bouer orienta o rapaz a conversar com professores de escolas religiosas ou seminários que podem explicar melhor as exigências e necessidades para o sacerdócio religioso. Ele afirma também que seria importante o rapaz dar atenção à questão da sexualidade. E questiona se essa confusão sobre a sexualidade não estaria interferindo no desejo sobre a carreira religiosa. O médico explica que em épocas passadas o sacerdócio acabava servindo de refúgio para os que tinham dúvida sobre sua sexualidade, uma vez que o celibato é uma das implicações da carreira religiosa.
(Folhateen/Folha de S. Paulo – SP, 14/3, pág. 3)

Nota ANDI
Os conflitos sexuais na adolescência representam um tabu que se reflete nas colunas de consulta de jornais e revistas. Apesar de ser considerado um aspecto comum na juventude, apenas 3,3% das questões direcionadas a essas seções por pessoas de 10 a 25 anos têm tal enfoque. A informação consta na pesquisa A Mídia como Consultório, realizada pela ANDI, em parceria com o Unicef, Coordenação Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde e Central de Projetos, sobre um universo de 363 perguntas e respostas publicadas entre setembro de 2001 e março de 2002. Mesmo que o jovem possa optar por manter-se no anonimato, ao enviar sua dúvida, ainda assim são poucas as inserções, o que dá uma idéia das barreiras existentes no diálogo com pais, amigos ou profissionais. Marcos Ribeiro, sexólogo e coordenador geral do Centro de Educação e Orientação Sexual, concorda que o celibato pode representar uma fuga para o jovem que se encontra nesse tipo de conflito, o que não é uma boa solução. “Se não se resolve a dificuldade, o melhor caminho é procurar ajuda. Se a questão da sexualidade não é bem administrada, a pessoa vive infeliz, com angústia. Em algum momento o problema virá à tona, e de forma potencializada”, adverte o sexólogo.

 

Saúde

 

Sonolência
Muitos adolescentes passam boa parte do dia dormindo, o que preocupa os pais. No entanto, o sono excessivo é normal nessa faixa etária, pois os jovens gastam muita energia física e mental, segundo o médico Noronha Filho. Alfredo da Costa Filho, 16 anos, só acorda com o despertador para ir ao colégio. Ele dorme durante a tarde e às vezes não tem disposição para fazer as tarefas. A estudante Denise Chaves, 15 anos, tem dificuldades para acordar cedo e ir à escola. Para compensar, tira um cochilo à tarde. A mãe dela, Stael Chaves, não reclama: “Ela é muito responsável e sempre faz suas obrigações”, afirma.
(For Teens/Meio Norte – PI, 17/3, pág. 4, 5 e 7, Lindalva Miranda)

 

Dieta saudável
Ter um corpo bonito - pelos padrões de hoje, leia-se magro e musculoso – não significa que se é saudável. Também não basta fechar a boca depois que se atingiu o limite diário de calorias ou ainda passar horas na academia para compensar exageros do dia anterior. Uma dieta equilibrada é importante para manter a forma, a saúde, a disposição e o bom humor. Na adolescência, o cuidado com a alimentação deve ser maior por ser uma fase de crescimento e de atividade intelectual intensa. A nutricionista Carmen Zita afirma que o jovem deve comer carne branca, frutas e leite (fonte de proteína e cálcio). Deve-se ainda evitar salgadinhos, refrigerantes e frituras. Os especialistas em nutrição não recomendam regimes radicais. “Às vezes a pessoa procura magreza e músculos por meios que prejudicam a saúde, e o resultado vai ser temporário”, diz. O melhor caminho para a saúde é associar boa alimentação com atividade física. O estudante universitário Pedro Uchoa Costa, 19 anos, procurou orientação nutricional para ganhar massa muscular. Agora, come de três em três horas e deixou os refrigerantes e sanduíches para os finais de semana. A endocrinologista Viviane Correia Santos afirma que o adolescente faz parte de um grupo de risco nutricional porque sofre influência da mídia que divulga alimentos com alto teor calórico. Segundo ela, a alimentação saudável e a atividade física são essenciais para manter um peso adequado além de ajudar na integração social do adolescente.
(Atitude/Hoje em Dia - MG, 13/3, pág. 29, Viviane Moreno; Galera/Correio de Sergipe-SE, 15/3, pág. 4 e 5)

 

Drogas caseiras
Muitos adolescentes estão partindo para drogas que podem ser compradas em farmácia sem receita médica e até encontradas em casa, como temperos, produtos de limpeza e um bizarro chá de fita de vídeo. “As drogas vêm se convertendo em meros produtos comerciais, encontrados em gôndolas de supermercado”, afirma o psiquiatra Marcelo Ribeiro, da Uniad (Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas), da Unifesp. Fitas de vídeos têm servido de ingrediente para um chá alucinógeno. Kleber fez a experiência. “É acessível a quem tiver coragem. Eu só tomei uma vez, pois sei dos riscos, uma vez que é pura química. Não recomendo a ninguém”, conta. Ele lembra que a ressaca é insuportável: “Tive muita dor de cabeça e febre”. Fernanda, 17 anos, já cheirou thinner. “Aqui em casa sempre tem. Não gostei, isso acaba com a gente”, diz. Luciano, 15, experimentou inalantes. “Vi alguns amigos usando. Não é forte. Todas as coisas que você quer pensar simplesmente surgem na sua cabeça, como um sonho”, conta. Apesar dos “sonhos”, inalantes são altamente tóxicos e podem matar. Luciano também já fumou orégano e outros temperos. O maior efeito colateral desses temperos é uma dor de cabeça, mas não há nenhum efeito esperado, como alucinações. Já remédios, solventes e inalantes são altamente prejudiciais e podem levar à morte.
(Folhateen/Folha de S. Paulo, 21/3, pág. 8 e 9, Alessandra Kormann)

 

Sedentarismo
Pesquisa da Unesco feita com 48 milhões de jovens brasileiros mostra que 57% deles não praticam esportes. Na era dos jogos eletrônicos e do conforto de um controle remoto, fazer uma atividade física se tornou mais difícil. Thaís Lemos, 14 anos, não gosta das aulas de educação física e arranja uma desculpa para não participar: “Às vezes, digo que estou com dores, com cólica”. Michele Cavalcanti, 15 anos, também não gosta das aulas: “Não gosto muito de esportes, prefiro malhar na academia. Faço aeróbica e musculação”. Thaís afirma que não pratica esporte por não ter tempo. “Tenho que estudar”. Falta de tempo, segundo a Unesco, é um dos principais motivos para se não praticar esporte (37%), outros 35% disseram não se interessar por atividades esportivas. Segundo o estudo, as atividades físicas são boas não só para a saúde física, mas também para o desenvolvimento intelectual do jovem. Hoje, o sedentarismo á principal causa do aumento de incidência de várias doenças como hipertensão arterial, obesidade e ansiedade.
(Caderno Dez!/A Tarde – BA, 31/3, pág. 6 e 7, Pedro Fernandes)

 

Diversidade

 

Dia da Mulher
Em 2005, o Dia Internacional de Mulher põe luzes sobre a mudança de conceitos com relação às mulheres. A busca pela independência, formação intelectual e a competição de igual para igual com o universo masculino no mercado de trabalho são fatores defendidos pelos pais atuais, que também não fazem mais tanta questão que suas filhas se casem cedo. Jocelaine Souza Valerio reproduz esse comportamento. Com 23 anos, é formada em direito e está terminando jornalismo. “Nós nos tornamos mais orgulhosas. Mesmo as mulheres casadas querem trabalhar e ter sua independência financeira”, afirma. Um fenômeno observado também é a troca de papéis no que se refere à procura por um relacionamento fixo. “Gosto mais de estar livre, não quero me prender. Hoje quem casa cedo são as que engravidam”, comenta Kelly Christine Woberto, 17 anos, que também não gosta de namorados que estejam presentes demais. “Acho que os homens têm que ser atenciosos na medida certa e não ficar cobrando muito da gente”, conclui.
(Zine/A Gazeta, 6/3, pág. 7, Khadine Novaczyk)

 

Pais homossexuais
A adoção de crianças por casais gays gera polêmica entre os jovens, apesar de o assunto não ser tabu para eles. Muitos não disfarçam a confusão sobre o tema. Uma das poucas unanimidades é em relação à enorme responsabilidade do casal e que as crianças poderiam ser alvo de brincadeirinhas, desencadeando constrangimentos e revolta. A estudante Mirian dos Reis não concorda com a idéia: “Acho errado, mas cada um faz o que quer”. Larissa Lima da Costa, 15 anos, vê a inseminação artificial como alternativa. “Se um casal de mulheres quiser, uma pode ficar grávida e ter o filho, mas a questão fica mais complicada no caso dos homens”, avalia. Fabiano Ramos enfatiza a responsabilidade que o casal gay deve assumir. “É um assunto muito complicado, por isso acho que esses casais deveriam ter um cuidado todo especial na educação de uma criança”, observa. Para Keila Azevedo, 16 anos, se uma pessoa é gay, é porque já nasce assim. “Não é o pai ou a mãe que vai influenciar na escolha do filho”, afirma. A religiosidade das pessoas parece ser decisiva na opinião dos jovens. “Se Deus fez o homem e a mulher, não acredito ser certo se relacionar com pessoas do mesmo sexo. Imagine então criar uma criança”, diz Tamires Rodrigues, 15 anos. Para ela, o preconceito da sociedade faria com que as crianças sofressem.
(Papo-Cabeça/A Crítica – AM, 19/3, capa, Daniel Favero e Paola Araújo)

 

Atualidades


Rádios comunitárias
A rádio comunitária Madame Satã, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, tem sua programação desenvolvida por jovens que moram ou já viveram em situação de rua. A rádio foi criada em 1999 pela ONG Excola e em 2000 conseguiu financiamento do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, virando rádio comunitária. O locutor e DJ Revoltado é o gerente da Madame Satã e durante dez anos viveu nas ruas. Filho de uma família pobre do Morro da Providência, no centro do Rio, Fábio Campos de Oliveira, 23 anos, nome verdadeiro, foi preso três vezes acusado de roubo e tráfico de drogas e levou um tirou na perna. “Antes minha vida era roubar, fumar maconha e cheirar cola. Hoje eu vivo para a rádio”, conta Fábio, que saiu de casa aos 9 anos devido às brigas dos pais. Na rua “comecei a aprender as maldades”. Hoje ele mora com a avó e vive do que ganha na rádio. Criada há oito anos no Morro do Vidigal por José Wanderley Gomes da Silva, a rádio Estilo Livre atua para tirar adolescentes do tráfico de drogas. O único pré-requisito para participar é estar estudando. É o que faz Helder Gonçalo Ferreira, 17 anos, locutor. “Eu ficava muito tempo na rua. Trabalhar na rádio me fez pensar no futuro. E também melhorei na escola”, conta o garoto, que sonha virar locutor.
(Megazine/O Globo – RJ, 29/3, pág. 10, 11 e 12, Bruno Porto)

 

Família

 

Fugir de casa
Adolescentes que fugiram de casa normalmente têm desilusões e acabam voltando para o lar. Foi o caso de Renata (nome fictício), 14 anos, que mora no interior de Minas Gerais. No ano passado, ela e duas amigas pegaram ônibus para o Rio de Janeiro. “Eu estava cansada da rotina, da minha mãe me prendendo”, diz. No entanto, a família acionou a polícia, que parou o veículo antes da chegada à cidade do Rio. Gabriella Schiavinato, 19 anos, fugiu com o namorado para viver um “amor proibido”, já que o pai não aceitava a relação. “Meu pai não gostava dos amigos dele, que era uma galera ‘da pesada’. E até me mandou passar férias na praia para me afastar dele. Mas, na primeira vez que vim para São Paulo, saí de madrugada para ficar com ele e fomos morar juntos”, conta Gabriella. Depois de um ano e meio, ela voltou para a casa dos pais após uma briga por ciúmes. “Vi que meu pai tinha razão. Hoje me arrependo de ter fugido, não faria isso de novo”, afirma. Gilda (nome fictício), 18 anos, colocou travesseiros sob as cobertas da cama para enganar os pais e saiu à noite com os amigos. “Meus pais nunca deixam, só quando é uma festa especial, e mesmo assim tenho que avisar com meses de antecedência”, diz. Para a psicóloga Leila Cury Tardivo, da USP, a vontade de fugir é normalmente acompanhada da falta de consciência das obrigações que uma vida adulta acarreta. “Essa sensação de não-pertencimento à família é muito comum. Mas, quando há uma fuga, isso revela uma impossibilidade de buscar o afastamento de forma mais saudável. Muitas vezes eles se expõem a perigos sem o menor preparo”, diz ela.
(Folhateen/Folha de S. Paulo – SP, 28/3, pág. 6 e 7, Alessandra Kormann)

 

Basquete e hip hop
Aliando esporte e cultura, o torneio Basquete Universo Hip Hop reuniu adolescentes fãs de rap no Ginásio de Esportes Saldanha da Gama, em Vitória (ES), nos dias 29 e 30 de dezembro. O evento, organizado pelo músico e atleta Renegrado Jorge e pelo professor de educação física Guilherme Salazar, busca promover integração social e lazer, utilizando esse dois aspectos que chamam a atenção da juventude. O basquete é tão popular entre os adeptos do hip hop, que o esporte disputa com o skate o título de quinto elemento do movimento: os outros são o rap, o DJ, o grafite e o break. Oito equipes disputaram o torneio. Os integrantes da equipe do bairro Boa Sorte, de Cariacica, competiram pela segunda vez. “No bairro, não tínhamos nenhum apoio para desenvolver atividade esportiva. Depois da nossa participação no torneio, a Escola Professor José Leão Nunes liberou a quadra para a gente treinar”, diz Sósteles Gonçalves Franco, um dos integrantes da equipe. O rapper Renegrado Jorge disse que o torneio começou como uma brincadeira entre equipes da periferia, mas foi crescendo e hoje conta com o apoio da Federação Capixaba de Basquete e do Saldanha da Gama. “Além de reunir as famílias para dois dias de lazer, é uma oportunidade para os jovens que não têm chance de praticar o esporte, para que, um dia, quem sabe, possam integrar uma equipe profissional”, diz.
(Fanzine/A Gazeta – ES, 19/1, pág. 6, Clodomir Bertoldi)

 

Filhos únicos
Ser filho único tem suas vantagens. Recebe todo o carinho e a atenção dos pais. Mas tem também seu lado ruim. Muitos dizem que às vezes sentem solidão por não ter um irmão, um companheiro para dividir as histórias, mas a maioria prefere não ter que dividir a atenção dos pais com ninguém. Lorena Lima Costa, 17 anos, diz que já pensou em ter uma irmã, mas isso já passou. “Minha mãe dá tudo para mim, faz as vontades”, conta. Andreza Macedo Azevedo, 14 anos, afirma que acha legal ser filha única porque recebe da mãe tudo o que pede. Eliseta de Sousa Moura, mãe de um adolescente de 15 anos, admite que é superprotetora e que procura dar a ele o melhor que pode. “Se pudesse daria muito mais, só para ele não sair de casa.” A psicóloga Regina Franco afirma que pais que superprotegem e que dão tudo o que a criança quer estão, na verdade, contribuindo para a formação de adultos inseguros, egoístas e comauto-estima baixa. Segundo Regina, deve ser permitido à criança conviver com outras, desfrutar de brincadeiras, fantasias em casa e na escola. Assim, ela poderá desenvolver o espírito de solidariedade.
(For Teens/Meio Norte-PI, 3/3, pág. 4, 5 e 7, Lindalva Miranda)

 

Manual para os pais
As norte-americanas Lara Fox e Hilary Frankel, de 17 anos, escreveram Breakink the Code, que busca uma ponte para resolver conflitos entre pais e seus filhos adolescentes. As garotas estão terminando o ensino médio numa escola particular do Bronx e começaram a escrever o livro há um ano, depois de verem uma palestra de uma psicóloga sobre como os pais podem conhecer melhor seus filhos. O livro é baseado em diálogos entre pais e filhos, em determinadas situações, seguidos de cenas alternativas que tentam prevenir confrontos familiares. “Os esforços para explicar por que um aparentemente inocente comentário se transforma num acesso de raiva podem ser sem sentido, se o resultado foi mais uma semana de silêncio do seu adolescente”, explica Lara. Alguns assuntos tratados no livro são pressão escolar, fumo, rivalidade entre irmãos e hora de dormir. As autoras ressaltam que os jovens são rápidos em interpretar os comentários dos pais com críticas hostis, que disfarçam sua vulnerabilidade. Elas explicam: “O que queremos é aprovação dos pais. Não esqueçam: agimos como se não ligássemos para o que vocês dizem, mas acreditamos no que vocês dizem sobre nós”.
(Megazine/O Globo – RJ, 29/3, pág. 13, Ruth La Feria, do The New York Times)

 

Novas Tecnologias

Celular na escola
Deixar o telefone celular ligado em sala de aula é falta de educação na opinião de Denise Ferreira, supervisora pedagógica do Colégio Andrews, no Rio de Janeiro. Ela afirma que quando o telefone vibra tira a atenção do dono e, se ele toca, acaba com a concentração de todos. Em dia de prova, é comum professores exigirem que os alunos deixem o aparelho na mochila para evitar colas. Para a professora Lídia Bronstein, dos colégios Santo Inácio e Santo Agostinho, celular não combina com disciplina, concentração e aprendizagem. Nas listas que as escolas divulgam com os direitos e deveres dos alunos, está determinado que o aparelho do aluno e do professor devem estar desligados durante a aula. Muitos estudantes, no entanto, deixam o telefone no toque “vibrar”. Em vez de falar, trocam mensagens. “Às vezes tenho que contar logo uma coisa para não esquecer. Mas tomo cuidado. Se o professor pega, manda o telefone para a direção”, diz Isabela Lobo, 15 anos. Muitos adolescentes alegam não se separar do celular por causa da preocupação do pai ou da mãe. A professora do Colégio Mopi Maria do Carmo Porto afirma que as famílias podem ligar para a escola caso tenham algo urgente para falar com o filho.
(Megazine/O Globo-RJ, 8/3, pág. 10 a 13, Ediane Merola)

 

Ciúmes no Orkut
Se o Orkut é uma ótima ferramenta para fazer amizades e reencontrar amigos também virou uma rede de intrigas, com internautas vigiando seus namorados virtualmente. Como? Lendo recados deixados na página da pessoa e examinando o perfil de quem faz parte de sua lista de amigos. Uma prova disso é o aumento no número de comunidades que falam de ciúmes e vigilância virtual. Uma delas é O Orkut Atrapalha Meu Namoro, que tem 385 membros e foi criado por Evelyne Guimarães, de 22 anos. Ela fundou a comunidade depois de brigar com o namorado por causa do site. “Eu não gosto quando alguma mulher deixa recado para ele. Fico com ciúmes e, ao mesmo tempo, me sinto ridícula”. E Beto também fica de olho na página dela. “Basta um cara me adicionar na página dele para o Beto reclamar”, conta. Uma paulistana de 22 anos chegou a terminar o namoro de três anos e meio depois de um desentendimento relacionado ao site. O ex viu comentários deixados por outros homens na página dela e a briga começou. Uma baiana de 20 anos faz parte da comunidade Meu Namorado Vigia Meu Orkut. O namorado dela examina o perfil de todos os rapazes que lhe deixam recado.
(Megazine/O Globo-RJ, 15/3, pág. 10 a 13, Bruno Porto)

 

Três dias na rede
Numa competição promovida por um shopping em Cuiabá, Denis Xavier Oliveira Campos, 23 anos, conseguiu ficar 67 horas e 12 minutos (quase três dias) sem dormir, conectado à internet. Durante a prova, os concorrentes poderiam atender ao telefone celular, participar de jogos online, acessar salas de bate-papo, assistir filmes e conversar entre si. Tinham apenas 15 minutos a cada três horas para descansar, comer e ir ao banheiro. A alimentação foi determinada por uma nutricionista. Era proibido consumir alimentos ou bebidas estimulantes. Para Denis, que ganhou um notebook como prêmio, não foi tão difícil resistir ao sono. Aluno de Computação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), está acostumado a passar horas na frente do computador. Ele conta que o segredo para não cochilar foi ficar jogando. A mãe também ajudou telefonando para ele toda hora. “É muito difícil agüentar todo esse tempo. Gostei, principalmente pelo prêmio. Mas não participaria de novo”. O médico Lucas Bello, da Clínica do Sono, afirma que ficar muito tempo sem dormir provoca alteração de humor e lentidão no raciocínio.
(Zine/A Gazeta-MT, 13/3, pág. 2, Giordanna Santos)

 

Nota ANDI
O excesso de informações e ocupações extras que acompanham os recursos tecnológicos traz a preocupação de que o jovem se dedique desmedidamente aos prazeres e facilidades por eles oferecidos. O psicanalista José Ottoni Outeiral afirma que é necessário que o adolescente incorpore esse avanço, mas é preciso discernimento. “O diálogo, não o monólogo, é a saída”, afirma. Durante o I Seminário de Atenção à Saúde Integral da Adolescência e Juventude Brasileira, realizado em março em Londrina (PR), Ottoni fez uma referência especial ao telefone celular. ‘’A juventude tem necessidade de viver numa grande rede. Se o celular é retirado, parece que uma parte do seu `eu´ morre’’, avalia. Ele não indica o telefone móvel como arma de controle dos pais, pois entende que isso restringe a privacidade dos filhos. A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rosane Albuquerque dos Santos Abreu explica que as tecnologias têm gerado novos comportamentos e formas de ser, pensar e sentir, que não podem ser vistos como melhores ou piores do que os conhecidos até então. Como as novas ferramentas integram o mundo das crianças e jovens, essa geração apresenta novos comportamentos, como processar a informação de maneira não muito organizada e não seqüencial; ter uma nova concentração para executar multitarefas; ser imediatista; tolerante, ao aceitar melhor a diversidade; e usar todos os meios disponíveis para estabelecer contatos sociais. No entanto, a pesquisadora afirma que os adultos tendem a considerar esse novo comportamento como desviante, porque continua vendo com os olhos do passado. Ao experimentar as novas possibilidades, como fazer parte de uma comunidade virtual, as pessoas ainda não se dão conta do que vão vivenciar. “Os jovens usufruem dos recursos, mas também sofrem as conseqüências dessas vivências”, diz Rosane.

 

Cultura

Escola e teatro
O professor de Literatura Inglesa e Norte-Americana do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Marco Antônio Ramos Vieira usa a grade de notas para incentivar o gosto de seus alunos por música, filmes e peças de teatro. O estudante que assistir à peça Macbeth, uma adaptação da obra de Shakespeare, em cartaz em Brasília, receberá um ponto na nota. Na opinião do professor, defensor da interdisciplinaridade no ensino, conhecimentos de história, antropologia, filosofia e artes são essenciais para quem quer aprender literatura. “O contato com outras áreas amplia a visão do universitário e o torna mais crítico”, afirma. Para Walma Laena Leite, 21 anos, métodos diferentes quebram a monotonia da sala de aula e ilustram melhor o conhecimento transmitido pelo professor. “É difícil vermos professores tão comprometidos com o ensino. A gente se assusta no começo”, confessa.
(Gabarito/Correio Braziliense, 7/3, pág. 12, Priscilla Borges)

 

Jovens dançarinos
O baixo número de bailarinos no Brasil ainda se explica pelo preconceito, que começa em casa. O responsável pelo informativo da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, Joel Gehlen, afirma que enquanto as meninas são incentivadas desde criança a fazer dança os meninos que desejam entrar nessa área têm que enfrentar a resistência dos pais e colegas. Dênis Oliveira, de 15 anos, participa há quatro anos do Núcleo de Dança da Prefeitura de Votorantim (SP). Ele conta que demorou um pouco para assumir para os outros que fazia dança e não teatro, como havia dito. Isso significou estar pronto para as brincadeiras dos amigos e da família. Thiago Pedroso de Lara, 19 anos, faz balé clássico, dança de salão e contemporânea. Nos primeiros meses, fez aulas escondido até da namorada. Quando resolveu contar a verdade, sentiu todo tipo de pressão. Os amigos se afastaram e as meninas faziam brincadeiras. O pai nunca assistiu à uma apresentação. Ele também é professor de dança da pré-escola e conta que o pai de um aluno o proibiu de ter aulas de dança. A única reclamação é a dificuldade de se manter financeiramente com essa profissão. “Se tivesse que escolher, a dança ganharia. Mas é uma carreira instável”.
(Gente Jovem/Cruzeiro do Sul – Sorocaba-SP, 13/3, pág. B-2, Estela Casagrande)

 

Movimento reggae
Mesmo enfrentando forte preconceito social, o reggae cresce e se fortalece em Teresina (PI). Um movimento liderado por bandas nacionais e seguido por bandas do estado está levando o reggae para além das periferias e transpondo barreiras sociais. Além da música, o reggae segue o estilo de vida pregado na religião rastafári, da Jamaica, que mistura um pouco da religião cristã, costumes afro-caribenhos e narrativas bíblicas. Há três anos Alexandre Gomes é um seguidor do estilo de vida do reggae. “As letras falam muito sobre a realidade de quem vive na periferia e tem uma mensagem de paz e igualdade entre os povos e as classes sociais”, diz. Uma contribuição importante que as bandas do Piauí vêm dando é a de ajudar a apagar a imagem negativa de que o reggae seria sinônimo de violência e de gangues. Essa tendência de mudança de imagem ganha força agora que com a versão televisiva do programa de rádio Buraco Negro, dedicado ao reggae. O locutor Carlinhos Bacana afirma que a violência nos bailes de reggae é a mesma que acontece em qualquer outro local. “A diferença é que as atenções se voltam mais para a periferia”, diz.
(For Teens, Meio Norte/PI, 10/3, pág. 4 a 7, Katya D´Angelles)

 

Direitos

Tatuagem
A Justiça de São Paulo garantiu a uma vestibulanda de 26 anos a possibilidade de se matricular na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, em Ribeirão Preto. Mesmo aprovada em segundo lugar no vestibular da Fuvest, a estudante foi rejeitada numa das etapas do processo de seleção por ter duas tatuagens no corpo: um golfinho na perna esquerda e um desenho abstrato nas costas. A academia deve recorrer da decisão.
(D+/Estado de Minas-MG, 1/3, pág. 9)

 

Basquete e hip hop
Aliando esporte e cultura, o torneio Basquete Universo Hip Hop reuniu adolescentes fãs de rap no Ginásio de Esportes Saldanha da Gama, em Vitória (ES), nos dias 29 e 30 de dezembro. O evento, organizado pelo músico e atleta Renegrado Jorge e pelo professor de educação física Guilherme Salazar, busca promover integração social e lazer, utilizando esse dois aspectos que chamam a atenção da juventude. O basquete é tão popular entre os adeptos do hip hop, que o esporte disputa com o skate o título de quinto elemento do movimento: os outros são o rap, o DJ, o grafite e o break. Oito equipes disputaram o torneio. Os integrantes da equipe do bairro Boa Sorte, de Cariacica, competiram pela segunda vez. “No bairro, não tínhamos nenhum apoio para desenvolver atividade esportiva. Depois da nossa participação no torneio, a Escola Professor José Leão Nunes liberou a quadra para a gente treinar”, diz Sósteles Gonçalves Franco, um dos integrantes da equipe. O rapper Renegrado Jorge disse que o torneio começou como uma brincadeira entre equipes da periferia, mas foi crescendo e hoje conta com o apoio da Federação Capixaba de Basquete e do Saldanha da Gama. “Além de reunir as famílias para dois dias de lazer, é uma oportunidade para os jovens que não têm chance de praticar o esporte, para que, um dia, quem sabe, possam integrar uma equipe profissional”, diz.
(Fanzine/A Gazeta – ES, 19/1, pág. 6, Clodomir Bertoldi)

 

Participação

Intercâmbio social
Cresce o número de estudantes que trabalham como voluntários em projeto sociais em outros países. Segundo a AFS Intercultura Brasil, que promove intercâmbios culturais e sociais em 52 países, este ano houve aumento de 37% no número de interessados em ser voluntário no exterior. Lara Rapson, 18 anos, de Auckland, Nova Zelândia, está em Brasília. “Esse trabalho me tornará uma pessoa melhor, mais paciente. Na Nova Zelândia há menos pobres. Aqui vou conhecer mais sobre diferenças sociais”, diz. Farzan Foroudi, 19 anos, de Izegem, Bélgica, foi para Glória dos Dourados (MS). Ele esteve antes no Rio de Janeiro para aprender português. “É incrível ver que na zona Sul tem muita gente rica, e na Norte muito mais pobres”, diz. A nova-iorquina Mariel Brito, 24 anos, é voluntária na ONG Dreams Brasil, que atua com crianças em situação de risco. “Nos EUA os programas recebem mais recursos. No Brasil há boas idéias, mas ainda iniciais. O governo poderia colaborar mais financeiramente”, diz a assistente social, no Rio há três semanas. Do Brasil, saem cerca de 50 jovens, por ano, para o exterior, só pela AFS. Os cariocas Marta Reis Rocha, 21 anos, e João Paulo da Rocha, 22, estão na África do Sul. “Trabalho em Johannesburgo, sem salário, numa distribuidora de filmes. Os vídeos vão para áreas pobres, para quem não tem acesso a outro tipo de cultura. Quero levar uns filmes africanos para o Brasil”, afirma Marta. João Paulo está em Cape Town, num projeto para crianças em situação de risco. “A violência ainda está associada à cor da pele, por mais que se fale que a questão agora é a diferença econômica”, avalia. (Megazine/O Globo –RJ, 22/3, pág. 10, 11, 12 e 13, Ediane Merola)


Jornalista Radical

Capricho quer construir senso crítico

Há mais de 50 anos no mercado, revista conta hoje com um conselho editorial formado por jovens

O jornalista Tato Coutinho é o redator-chefe da revista Capricho, uma das publicações com maior índice de leitura entre adolescentes. Publicada há mais de 50 anos, a revista é editada hoje quinzenalmente. Tato Coutinho começou a carreira como pesquisador no Departamento de Documentação da Editora Abril. Antes de trabalhar na Capricho, foi editor-executivo e editor-chefe do Jornal da Cultura, durante oito anos. Há três meses, o jornalista está estreitando o bate-papo com adolescentes em um programa de rádio ao vivo, veiculado toda sexta-feira, das 19h às 20h, na Rádio Metropolitana FM de São Paulo. Tato Coutinho responde ao vivo perguntas feitas pelo público.

O programa No Capricho é transmitido apenas para a cidade de São Paulo, mas pode ser acessado pela internet (www.metropolitanafm.com.br).Com todos os desafios de uma publicação comercial, como é pensada a responsabilidade diante de leitores em formação? Como não reforçar o consumismo?

Manter o foco nos interesses do leitor, escrever bem, apurar com responsabilidade, contextualizar a informação, produzir uma crítica adequada: essas são as ferramentas básicas usadas/oferecidas pela revista na construção do senso crítico do jovem. O principal reforço do consumismo vem da família, consolidadora do bombardeio de informações dos meios de comunicação de massa: a saída é promover a discussão do assunto nesse foro.

Como a revista lida com o fato de que nem sempre as celebridades têm conhecimento suficiente para responder temas de importância para os jovens?

As celebridades, na Capricho, só falam do que sabem: de suas experiências pessoais. Suas experiências servem de espelho para abordar criticamente as questões que reverberam no universo jovem.

A Capricho dá atenção especial a questões de comportamento – como o fim de namoro e dicas para conquistar um garoto. Que parâmetros guiam a revista na construção dessas pautas?

Os parâmetros são fornecidos pelo contato cotidiano com o público leitor. A redação e seu time de consultores contextualizam criticamente os comportamentos discutidos e apresentados.

Qual o desafio de escrever para um público que tem acesso a um grande número de informações?

Transformar a abordagem em ferramenta indispensável para o leitor se relacionar com o mundo dele. Se a abordagem não for relevante, a revista vira commoditie, como a maioria dos meios a que ele tem acesso.

O tema drogas não é de fácil abordagem. Como se posicionar como um fórum de debate diante da complexidade do tema?

A fórmula da Capricho é simples: informar, sem preconceito, para o leitor construir conhecimento em torno das questões que o afetam diretamente de maneira responsável, que não afete seu futuro como cidadão. A revista é a favor da descriminação, mas contra a legalização.

Como tornar atraentes pautas aparentemente esgotadas – gravidez na adolescência e prevenção às DST/Aids – mas que continuam sendo de grande relevância?

As pautas não estão esgotadas; a abordagem “oficial”, sim. Capricho aborda essas pautas a partir das experiências de seu público. As informações básicas essenciais à prevenção giram em torno do uso que os entrevistados fazem delas, contextualizando sua eficiência – por que dá certo ou não.

Publicada há mais de 50 anos, como a revista vem se adaptando às mudanças dos jovens?

Esse assunto rende um amplo debate. Basicamente, os jovens têm uma atenção muito mais dispersiva e uma capacidade de absorção de informação absurdamente superior, o que torna mais delicada a construção crítica do conhecimento e de seus valores.

Como é a participação dos leitores que formam a Galera Capricho?

A Galera, hoje Capricho Club, está em sua sétima edição. O conselho, formado por 10 jovens, participa das reuniões de pauta e das reportagens, emitindo opiniões e criticando as abordagens durante a sua edição, que dura seis meses.

Raio X:

Revista: Capricho
Periodicidade: quinzenal
Tempo de circulação: 52 anos
Número de páginas: 98


Antenados

Cordialidade predomina no BBB 5

Sem procurar contribuir para a discussão de temas relevantes, Big Brother Brasil conclui quinta edição com recorde de audiência

O término da quinta edição do Big Brother Brasil, transmitido pela Rede Globo, suscita novos debates e análises que tentam explicar o fenômeno televisivo que vem conquistando grande público desde o seu surgimento. A esta última edição bateu recordes de audiência e de participação nas votações, em comparação com as anteriores. Com integrantes predominantemente jovens, o BBB é visto por pessoas de todas as faixas etárias. No ano passado, foi apontado como o segundo programa de tevê mais visto pelos adolescentes brasileiros, conforme um pesquisa do instituto Multifocus, por encomenda da ONG Midiativa.

Em pouco mais de dois meses da quinta edição do programa, os participantes viraram foco de atenção de boa parte da população, que teceu discussões a respeito das relações humanas estabelecidas pelo grupo. Além de ser assunto corriqueiro nas conversas, os telespectadores, os telespectadores criaram blogs e sites em que relatavam os episódios do BB e exprimiam suas opiniões a respeito dos concorrentes.

Expostos a esse grande olho nacional, os jovens confinados organizarem-se em dois grupos, cada um deles, firmando alianças e traçando estratégias a fim de prevalecer sobre o outro. Nesse caldo, que misturou intrigas, traições e amizades, vieram à tona alguns temas que revelavam valores e preconceitos dos integrantes da casa. Uma das questões centrais foi a homossexualidade assumida do professor universitário Jean, que acabou sendo o grande vencedor do BBB 5. Ele escutou piadas e comentários de conteúdo homofóbico até o momento em que os jogadores do grupo oponente perceberam que tal comportamento representava um decréscimo às suas imagens. O público, guiado por um aparente senso comum de solidariedade e preocupação com o calor das relações, acabou por diluir a facção que predominava na casa, formada por oito jovens.

Cordialidade

Mesmo que vez ou outra surja algum assunto polêmico na pauta dos concorrentes ao prêmio de R$ 1 milhão, não é esse o principal aspecto considerado no julgamento do telespectador. Segundo a pesquisadora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), Verônica Eloi de Almeida, que defendeu em 2003 a dissertação Os reality shows e o respeitável público da vida privada, no curso de mestrado em Sociologia da Cultura, o BBB 5 reforçou ainda mais um caráter que havia observado ela observou desde a primeira edição: a cordialidade como o maior valor levado em conta pelo público na hora de eleger quem permanece no programa até a vitória final.

De acordo com Verônica, a edição da emissora no último programa foi mais eficiente no sentido de ajudar o público a distinguir os participantes em dois tipos, uma vez que o apresentador Pedro Bial passou a denominar os grupos como “os inacreditáveis” e “os defensores”.

Os “inacreditáveis” foram identificados pelo telespectador como os competidores; e os “defensores” como os cordiais. “No Brasil, a competição é associada a algo negativo. Qual é o problema de os participantes se unirem para eliminar alguém? Faz parte do jogo”, diz a pesquisadora. Segundo ela, a disputa dentro da casa foi essencialmente marcada pelos vínculos afetivos construídos pelos participantes. O público observa a ingenuidade, a sinceridade e a espontaneidade dos concorrentes.

A escolha de Jean, na opinião da pesquisadora, ocorreu por ele ser o homem mais cordial da casa. “Ele era o conselheiro, o amigo, o afetuoso, até em relação aos seus oponentes. Por isso ganhou. Os votos para ele não foram em função de sua orientação sexual.”

Falta de roteiro
Se em termos de conteúdo, o Big Brother não provoca reflexão profunda sobre nenhum assunto específico, o programa acaba atraindo por ser uma espécie de laboratório, no qual o comportamento de cada participante nas situações corriqueiras é determinante. “O programa não tem roteiro e reduz a intimidade à banalidade. A própria relação entre os participantes é o acontecimento do Big Brother, é o que prende a atenção do telespectador”, analisa Verônica. Se os concorrentes misturam no dia-a-dia relações afetivas genuínas com artificiais, marcando um relacionamento dúbio, o público faz essa distinção. Atentos a essa observação externa, os jovens confinados têm que aprender a jogar para dentro e para fora. Com o desenrolar dos episódios, fica cada vez mais difícil para eles representar um papel, realçando a sua própria natureza. O longo tempo de permanência na casa também provoca uma aproximação maior entre eles e o surgimento de amizades e namoros, mesmo que sejam temporários.

Culto ao corpo
A produção do programa prima pelo aspecto físico de cada morador da casa e em sua manutenção no período de confinamento. Uma piscina, uma academia e a convivência entre pessoas de feitios corporais que atendem perfeitamente aos padrões de beleza impostos pela mídia são o convite para o culto ao corpo. Fica clara uma preocupação demasiada com esse aspecto. O fato de a concorrente Karla, por exemplo, ter engordado um pouco no decorrer dos dias, passou a ser realçado. Diálogos, efeitos especiais e até uma conversa travada entre ela e sua mãe dão ênfase à questão, o que vem a envidenciar uma forte disfunção da mídia, já que os veículos se portam como construtores de referências estéticas para a população – principalmente para as mulheres.

Essa padronização não é mal vista e nem chega a ser discutida no programa; muito pelo contrário, é exaltada, colocando à margem a mulher que perde a forma. Esse ponto de vista se traduz na fala de Jean, professor universitário e uma espécie de conselheiro da casa. “Você chegou aqui gostosíssima, linda. Já começou a engordar um pouquinho”, observa em um dos episódios. A escolha por participantes jovens, de 20 a 30 anos, é justamente em função do corpo, que reforça um padrão já ditado pela tevê, observa a pesquisadora.

Com piercing e cabelos pintados de vermelho, a BBB Juliana foi a primeira eliminada pelo paredão. Numa sala de bate-papo virtual, quando lhe perguntaram o queachou de ter sido eleita pelos telespectadores “a mais gata”, mesmo concorrendo com beldades como Natália e Grazielli, a participante mais nova do programa disse: “Acho que é por eu ser jovem e como são mais os adolescentes que fazem esse tipo de seleção... Acho que é por eu ser uma representante do público jovem”.

Interatividade
Verônica avalia que o BBB é inovador no sentido de ter possibilitado uma conexão com os telespectadores nunca vista antes. “O programa provocou interatividade, a criação de comunidades virtuais e trouxe à tona o debate sobre a tecnicidade e o olhar.”

Em artigo escrito no site contracampo.com.br, o cineasta Eduardo Valente avalia que o reality show traz algo de novo para a dramaturgia televisiva. “Comecemos pelo fato mais óbvio: estes personagens existem de verdade. Ou seja, fora das telas eles continuam vivendo. Eles têm família, amigos e uma casa fora da nossa telinha. Isso os torna, automaticamente, empáticos, pois são como nós. Fora isso, se você bater neles, dói mesmo; se você xingá-los, eles ficam chateados; se você beija-los, eles ficam excitados. Este é o primordial ponto novo de atrativo do público. Prova de sua funcionalidade é que as pessoas voltam a discutir os personagens em mesas de bar, fóruns de discussão na web.”

O grande envolvimento do telespectador com um programa como o Big Brother Brasil mostra que, se a mídia tem forte capacidade mobilizadora, o público também dá demonstração de que pode interferir nesse processo de produção. Mesmo que a Globo tenha o poder de edição dos episódios, que acaba moldando a construção da imagem de cada participante, o público é capaz de decidir à revelia da emissora. Do ponto de vista de contribuição para a sociedade, mesmo que não tenha essa intenção, o BBB propicia debates e análises que ajudam a desvendar o que está por trás desse tipo de produção televisiva. De tanto falar no assunto, o telespectador desenvolve uma visão crítica a respeito do poder de manipulação da televisão, opinião que foge ao controle da produção do programa.

 

A voz dos adolescentes

A equipe da Coordenação de Mídia Jovem da ANDI foi às ruas para conhecer a opinião do público jovem à respeito do programa Big Brother Brasil. Pela amostra, fica claro que a última edição foi a que mais agradou os telespectadores. Maturidade e firmeza marcam a posição dos adolescentes.

Daniel de Moura, 27 anos, estudante de direito
“Essa última edição foi a mais original; o destaque do programa não foram os conflitos, mas as amizades que se firmaram dentro da casa e a espontaneidade dos participantes. Isso agradou o público; as pessoas hoje não querem artificialidade, nem ver apenas rostos bonitos. O público está mais envolvido com os sentimentos”.

Larissa Pereira, 14, 2º ano do ensino médio
“O preconceito de alguns participantes em relação ao Jean (que assumiu ser homossexual) tornou esse último Big Brother mais atrativo. No resultado de cada paredão era possível julgar a opinião do público sobre o assunto. Gosto mais de ver a convivência entre pessoas de classes diferentes”.

Marcelo Delfino, 26, cozinheiro
“Gostei muito desse Big Brother. Foi a melhor edição pela polêmica que teve com o fato de o Jean assumir sua homossexualidade. O programa foi um espaço de debate sobre o assunto e favoreceu a discussão nas ruas. Fiquei feliz em ver que o público não julgou o Jean pela sua opção sexual, mas sim por sua personalidade durante a edição”.

Ana Luiza Medeiros, 16, 3º ano do ensino médio
“Não vejo Big Brother, acho que é perder tempo. Não gosto da forma do programa; os participantes ficam expostos e o público julgando as atitudes de cada um deles, se são boas pessoas ou não. Acho que não cabe a mim decidir quem é legal ou não, quem merece ficar rico ou não”.

Edbérgia Alves de Souza, 24, trabalhadora
“Ver Big Brother é muito bom. Adoro ver a reação dos participantes diante das câmeras e os relacionamentos dentro da casa. É o único programa em que os participantes se relacionam de forma real. Sem contar que assistir à intimidade de outras pessoas é muito divertido. O que eu não gosto é das cenas apelativas, acho meio forçado a Globo ficar passando as cenas de sexo, isso agride o público, é vulgar”.

Lílian Pereira da Silva, 19, 3º ano do ensino médio
“Big Brother não é o meu programa preferido, mas eu sempre assisto. Acabo me afeiçoando por alguns dos participantes, e aí não deixo mais de ver. Esta última edição foi a mais bacana de todas”.


Políticas públicas em foco

Grande mídia dá pouco espaço à política nacional de juventude

Apenas oito jornais em todo o País cobriram, em março, questões relacionadas à agenda da Secretaria de Juventude e do Pró-Jovem Em março, ao longo do mês seguinte ao lançamento da Política Nacional de Juventude pelo governo federal, com a criação da Secretaria Nacional de Juventude, do Conselho Nacional de Juventude e do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Pró-Jovem), o tema ocupou pouco espaço na grande mídia. Esteve presente apenas na pauta de oito jornais, com a publicação de um texto por veículo. Foi em 1º de fevereiro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a medida provisória instituindo uma política que pretende atender os interesses dos jovens brasileiros.

O Pró-Jovem visa beneficiar 200 mil jovens em situação de risco e vulnerabilidade social e tem rubrica de R$ 311 milhões no orçamento de 2005. Executado em parceria com as prefeituras das capitais, o programa oferecerá oficina de capacitação com inclusão digital e qualificação profissional, mais uma bolsa de R$ 100,00 mensais. A iniciativa prevê também oferta de cursos supletivos para a conclusão do ensino fundamental. Em contrapartida, os alunos farão trabalhos comunitários. Para participar, é preciso ter completado a 4ª série do ensino fundamental, mas não ter concluído a 8ª, nem ter qualificação adequada para ingressar no mercado de trabalho. O Pró-Jovem integrará cerca de 50 ações governamentais relativas aos jovens, incluindo os programas Primeiro Emprego e o Programa Universidade Para Todos (ProUni).

Por se tratar de uma política de amplitude inédita e direcionada a um público que até agora pouco foi beneficiado por ações governamentais, pode-se dizer que a Política Nacional de Juventude esteve na pauta de um número pequeno de jornais e, no geral, de maneira superficial e descontextualizada. Como as análises dos meses anteriores mostraram, a mídia dá mais visibilidade a essas políticas por ocasião de seus lançamentos, deixando de acompanhar a implementação e os resultados posteriores.

Grande parte dos textos publicados em março não preocupou-se em contextualizar a situação da população jovem no Brasil, com relação a níveis de escolaridade, desemprego e outros índices socioeconômicos. Apenas três textos trouxeram avaliação de expectativas, com um deles evocando um cenário mais geral. A matéria Projeto Juventude deve embasar ações, publicada no Jornal do Tocantins, em 18 de março e assinada por Débora Borges, mostra dados de pesquisa com jovens sobre suas expectativas e preocupações na atualidade. O texto da Tribuna da Bahia, intitulado Secretaria vai incentivar políticas para os jovens, publicado em 25 de março, contextualiza a violência que atinge esse público. A entrevista do secretário de Juventude do Acre, Leonardo Brito, feita por Tatiana Campos para o jornal A Gazeta, de Rio Branco, em 27 de março, trata de questões de diversidade, gênero e violência relacionadas à juventude.

Cadê os jovens?
No geral, a mídia impressa poderia tratar o tema diversificando mais as fontes e, por conseqüência, ouvir os verdadeiros interessados na política pública: os jovens de famílias de baixa renda das capitais. No entanto, os jornais se concentraram na voz do Poder Executivo, responsável por metade das fontes ouvidas; com relação aos jovens, foram consultados apenas quatro representantes de organizações não-governamentais, que são classificados como protagonistas. Não foram entrevistados os jovens que têm o perfil para serem atendidos pelo programa.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é citado na matéria Jovens até 24 anos representam 30% da população carcerária, publicada pelo jornal O Norte, de João Pessoa, de 22 de março, que traz dados de jovens em conflito com a lei. O diagnóstico do secretário nacional de Juventude, Beto Cury, de que as pessoas de 18 a 24 anos representam 30% da população carcerária do País, abre a reportagem. Nesse caso, também predomina a voz oficial, com fontes de outro ministro e do grupo interministerial.

A segunda edição do encontro Vozes Jovens, iniciativa do governo federal, que ocorreu entre os dias 21 e 23 de março, teve cobertura tímida e ouviu apenas um jovem protagonista, mesmo com a participação de 180 jovens negros, brancos, índios e homossexuais no evento.

População jovem
Com uma população de 34 milhões de adolescentes e jovens, com idades entre 15 e 24 anos, o Brasil não tinha uma política específica para atender a essa faixa etária. “Eu tenho menos de dois anos de mandato pela frente. Mas vocês, que estão na faixa dos 20, têm a vida inteira para fazer valer para sempre uma política nacional para a juventude”, disse o presidente Lula em um discurso de improviso, no lançamento da Secretaria.

Fontes ouvidas sobre a Secretaria de Juventude e o Pró-Jovem

Fontes ouvidas

Março (8textos )

Executivo

50%

Adolescentes/ Jovens Protagonistas

20%

Representantes de organismos internacionais

15%

Legislativo

5%

Jovens de baixa renda/ excluídos

-

Outros

10%

O anúncio da política de juventude ocorreu na presença de diversos segmentos da sociedade, entre jovens, parlamentares e organizações. O Conselho Nacional de Juventude terá como finalidade propor as diretrizes das ações do governo voltadas para as políticas públicas de juventude. Com o lema “Tudo pelo jovem e nada sem o jovem”, o Conselho pretende garantir espaço para a participação do jovem em todo o processo de implementação e fiscalização do trabalho. Ainda em formação, o Conselho terá um terço de representantes do governo e dois terços da sociedade civil que sejam entidades de jovens ou que atuem nessa área.

Pesquisa
Na IV Reunião do Fórum Nacional de Secretários e Gestores Estaduais de Juventude, realizado em Palmas (TO) no dia 17 de março, a consultora especial do Projeto Juventude do Instituto Cidadania e secretária adjunta da Secretaria Nacional de Juventude, Regina Novaes, apresentou a pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, do Instituto Cidadania, com um diagnóstico completo da situação do jovem no País. A pesquisa, realizada em 2003, ouviu 3,5 mil jovens e mostra que 74% deles acham que há mais coisas boas do que ruins no jovem. Dos temas que mais os preocupam, do total de três menções de cada entrevistado, segurança/violência está em primeiro lugar (55%), emprego/profissão é a segunda (52%) e drogas é a terceira (24%).

Sem informação
A inexpressiva cobertura da mídia sobre a Secretaria Nacional de Juventude pode explicar o fato de que poucos jovens brasileiros têm conhecimento dos programas governamentais dirigidos a eles. É o que pensa o secretário executivo do Instituto Juventude do Baixo Sul da Bahia, Lucas Guerrieri. Segundo ele, embora muitos jovens estejam articulados para participar da implementação dessas políticas, essa mobilização é pequena se comparada ao número da população dessa faixa etária. “Nós estamos provocando essa discussão, mas tem pouca gente sabendo. Na minha cidade as pessoas sabem, mas no estado da Bahia isso ainda está distante”, diz. Aos 25 anos, ele estuda Administração e mora em Ituberá, cidade baiana com 25 mil habitantes.

Para Guerrieri, embora a iniciativa do governo federal e do legislativo represente um avanço na concretização de políticas para os jovens, ele critica a forma como vêm sendo indicados os representantes da sociedade civil para o Conselho Nacional de Juventude – são convidados pelo governo até que se efetive eleições em conferências futuras. “O melhor caminho, de escolha de delegados por estados até a realização de uma conferência nacional, deveria já ter sido adotado. Mas deixo claro que os nomes apresentados até agora são de pessoas interessadas nas causas da juventude e articuladas nesse debate”.

Raio x:

Nº de veículos monitorados: 60
Nº de veículos que trataram da Política Nacional de Juventude em março de 2005: 8
Nº de textos que abordaram/mencionaram a iniciativa: 8


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