Leonardo Sakamoto

Até entendo que muita gente sinta que sua experiência de superação é bonita o suficiente para ser copiada pelo seu filho ou filha. Mas será que eles não imaginam que o trabalho infantil, que atrapalha o desenvolvimento da criança, não precisa ser hereditário? Acompanhei muitas histórias assim ao longo dos anos. Casos como os das crianças potiguares que abatiam gado e reviravam tripas de bois em matadouros no interior do Rio Grande do Norte ou dos jovens que colhiam limão e dormiam com ratos a menos de 100 quilômetros da capital paulista são uma vergonha para o país. Parte dos empresários, temendo repercussões negativas para a imagem de seus produtos e serviços, têm olhado para as suas cadeias produtivas com mais cuidado. Outros, com a certeza de que continuarão com seus clientes fazem de conta que não é com eles e usam justificativas como: "ah, mas na China e na Índia a situação é pior". E a infância vai sendo tragada pelo ralo da economia. O mais triste de tudo isso é ver parte dos trabalhadores, que foi acostumada a ser explorada, passando a justificar a própria exploração, dizendo que quem pega duro desde cedo cresce com caráter lapidado, repetindo bovinamente um discurso que a eles foi reservado: só o trabalho liberta.

Ser Jornalista Amigo da Criança é funcionar como um espelho, mostrando para a própria sociedade como somos ridículos diante desses assuntos. E, a partir daí, discutir com ela o que poderíamos vir a ser.

Leonardo Moretti Sakamoto
13 de Agosto de 2012
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