21 de Março de 2019
'Transferência não educa', diz especialista sobre ameaça no Gisno

Veículo: 
Correio Braziliense

A promessa de um atentado contra o Centro Educacional Gisno, na 907 Norte, que mobilizou o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros e paralisou as aulas na instituição de ensino, não passou de “uma brincadeira”, de acordo com o relato dos cinco estudantes que, se aproveitando do momento de comoção nacional após o ataque em Suzano (SP), fizeram ameaças a outros alunos e a professores. Como punição, foram transferidos de colégio.

“A transferência compulsória dá apenas uma falsa ideia de solução do problema pela lógica da punição, mas não educa”, ressalta a especialista em psicologia educacional Telma Vinha. Na avaliação dela, lidar com questões de violência nas escolas exige muito mais do que responsabilizar fatores isolados. “É necessário focar na qualidade da convivência e do clima das escolas, fortalecendo a cultura do diálogo e trabalhando pontos de divergência e convergência apontados por alunos, professores e familiares.”

As limitações de recursos humanos são citadas pela direção do Gisno como uma das barreiras para promover a assistência necessária aos alunos. De acordo com o diretor, Isley Marth, apenas um orientador educacional atende aproximadamente mil alunos dos ensinos fundamental e médio regular. “Como temos baixo efetivo de funcionários em algumas funções, acabamos tendo que ser professores, médicos, psicólogos e tudo o mais”, relata.

Carregando o estigma de ser a escola do Plano Piloto para onde são enviados alunos com comportamentos violentos, o Gisno enfrenta o desafio de recuperar a autoestima dos estudantes e dos educadores. “O colégio acaba sendo um antro de dificuldades que lidamos diariamente. Todo estudante que apresenta algum tipo de problema é mandado para cá”, diz o professor de português Ricardo Andrade.

O diretor Isley conta que chegou a ouvir educadores de fora rotularem a instituição como uma ‘escola problema’. “Nós recebemos muitos alunos rejeitados mesmo, mas esse é o certo, temos nosso lado humano e não vamos deixar um jovem sem matrícula enquanto tivermos vaga aqui.”

Diretora do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), Rosilene Corrêa concorda que a falta de infraestrutura e de profissionais qualificados para lidar com situações de conflito contribui para a violência nas escolas. Ela considerada também que o episódio de ontem é resultado de uma sociedade com cada vez mais desumanizada. “Reflexo disso é uma grave ameaça ser tratada como mera brincadeira, o que é ainda mais preocupante e expõe a necessidade de um olhar mais atento às novas gerações.”

Abandono

Durante a investigação das ameaças, chamou a atenção do chefe da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), delegado Vicente Paranahiba, o perfil dos adolescentes envolvidos. A maioria deles tem histórico de problemas sociais e familiares. “Um dos jovens tomou remédio controlado, se consultava com psiquiatras, tem marcas de autoflagelação e tentou suicídio. Pelo menos três deles têm problemas familiares e citaram que sofreram bullying.”

As investigações começaram após a direção do colégio ter acesso a mensagens postadas pelo grupo de estudantes, entre eles um maior de idade. “As bombas foram posicionadas com antecedência semana passada. (...) Nós vamos invadir pela área atrás do Gisno, onde estão guardadas as armas e munição”, escreveu um dos adolescentes no status do WhatsApp. Na mesma noite, funcionários da escola fizeram um boletim de ocorrência, e a Polícia Civil começou a investigar o caso, por meio da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) e da DCA.

Por volta de 1h, agentes foram até a casa de um dos suspeitos, de 17 anos. “Revistamos o local com a autorização dos envolvidos e conduzimos o garoto e sua responsável, a irmã, para a oitiva. Quando chegou aqui à delegacia, ele disse que as postagens ameaçando a escola eram uma ‘brincadeira’, que não teria coragem de fazer isso”, detalha Vicente Paranahiba. Os agentes não encontraram nada de ilícito, mas acessaram o celular do rapaz e descobriram mais mensagens combinando possível atentado.

Como os diálogos citavam bombas, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros mobilizaram especialistas nesse tipo de ocorrência e foram até a escola por volta das 5h. Duas horas mais tarde, os bombeiros declararam o fim da operação sem que se tivesse encontrado qualquer explosivo na escola.

Alunos do ensino médio que chegavam para as aulas da manhã aguardavam apreensivos o fim da ocorrência do lado de fora da instituição. Alguns responsáveis também esperavam com medo. Foi o caso de Maria Oliveira, 63 anos. “Quando minha neta me contou das ameaças, fiquei em pânico”, diz.  “Assusta ainda mais isso acontecer perto do massacre de São Paulo.”Após a operação, a direção resolveu cancelar as aulas do dia.

Projeto em elaboração

A Secretaria de Educação do DF informou, em nota, que elabora o projeto Escolas para a Paz, para ser lançado em abril. “Foi instituído um grupo de trabalho para mapear situações de violência física e psicológica no ambiente escolar, com o objetivo de subsidiar as novas ações”, destaca o texto. Além disso, a pasta afirma que trabalha em parceria com o Batalhão Escolar da Polícia Militar, com objetivo de promover a segurança nas proximidades das unidades de ensino, e oferece capacitação aos docentes no Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação (Eape).

 

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