27 de Março de 2017
Preferência por crianças brancas e loiras dificulta adoção em Alagoas

Veículo: 
Globo.com

A esperança é um sentimento comum a crianças e adolescentes que aguardam adoção em abrigos, mesmo diante da espera por uma nova família, que às vezes não chega nunca. Em Alagoas, a preferência de pretendentes por crianças do sexo feminino, brancas e loiras acaba sendo um entrave ainda maior que a burocracia neste processo de adoção.

A informação é da Comissão da Infância e Juventude da Associação Alagoana de Magistrados (Almajis). Das 36 crianças e adolescentes que podem ser adotadas no estado, apenas três são brancas, e outras três, negras. As outras 30 são pardas.

O número de crianças na fila de adoção é pequeno, se considerados os 327 pretendentes cadastrados no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O problema é que apenas 8,4% delas se encaixam no perfil escolhido pela maioria das famílias.

"[Famílias] Preferem crianças brancas e do cabelo loiro. Isso é um dos grandes fatores ajudam na demora pela adoção", expôs o juiz.

De acordo com o juiz Carlos Cavalcante, coordenador da Comissão, além do fator racial, a idade também é algo importante para os pais.

Na maioria dos casos, a exigência dos pretendentes é que a criança não tenha mais que 2 anos de vida.

“Após os três anos da idade, a dificuldade em conseguir uma família para a criança e, depois para o adolescente, é muito grande. De modo que, quando a criança tem 10 anos, praticamente não há interessados em adotá-la. Além disso, se ela tiver algum tipo de deficiência física ou mental, a dificuldade é muito significativa”, disse o juiz.

A facilidade em conseguir famílias para crianças pequenas é percebida no Lar de Amparo à Criança para Adoção (LACA) é uma organização sem fins lucrativos que funciona em Maceió e acolhe meninas e meninos de até 6 anos.

Se as crianças do LACA não forem adotadas até atingirem idade superior a 6 anos, são  levadas para outros abrigos, mas isso raramente chega a acontecer. O diretor do LACA, Irani Buarque, conta que em quase uma década, 149 crianças passaram pelo abrigo e a maior parte delas foi adotada, mesmo não sendo branca.

"Foram 79 meninos e meninas adotados, 62 voltaram ao convívio de suas famílias biológicas e apenas 2 foram transferidos por comportamento não adequado. Não houve um pai que visitasse uma criança no LACA e não quisesse adotá-la", afirma Buarque.

Processo de adoção é demorado
Para o magistrado que coordena a Comissão da Infância e Juventude da Almajis, os órgãos públicos pecam por não tratarem com agilidade o processo de adoção. E quando a seleção por crianças arianas não fala mais alto, a demora se torna um entrave.

O tempo que se leva apenas para encontrar uma criança no perfil pretendido é de cerca de um ano. “Existe uma necessidade do aperfeiçoamento das unidades judiciárias que tratam dessa matéria para que o processo de adoção seja mais rápido e eficiente. O direito à família é constitucional e natural”, avalia Carlos Cavalcante.

Assim como o juiz explica, as crianças e adolescentes que ocupam os abrigos passaram por situações de vulnerabilidade social. Em muitos casos, foram situações de violência física, psicológica e sexual provocadas pelos pais.

No LACA, mesmo com pouca idade, as crianças acumulam experiências difíceis, que até muitos adultos jamais enfrentaram.

"Elas [crianças] saem de um mundo perverso, um mundo ruim, que é aquilo que conheceram, não é? Chegam assustadas, com medo. A grande maioria vem por causa dos maus-tratos, porque os pais são drogados ou por causa das duas situações. Vamos tentando conquistar elas, dando amor e carinho, e indo na esperança de que consigam um lar algum dia", afirma o diretor do abrigo.

Buarque, ou simplesmente "tio", que é como as crianças o chamam carinhosamente, conta ainda que ainda há muito preconceito em relação ao histórico familiar da criança disponivel para adoção.

"Muitas vezes as pessoas têm medo de adotar uma criança com traumas e acham que podem ficar violentas porque vivenciaram isso no passado. Mas quantos papais e mamães ricos têm filhos bandidos? É preciso mostrar o caminho. Ensinar o que é certo e o que é errado. Essas crianças não têm culpa do que viveram. Se elas receberam amor e carinho vão retribuir em dobro. Não desistam”, diz, emocionado, o diretor.

 

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