10 de Junho de 2020
Os efeitos do confinamento na saúde mental de crianças e adolescentes

Veículo: 
EL PAÍS

Cerca de 860 milhões de crianças do mundo todo saíram um dia das aulas e na manhã seguinte não puderam voltar à escola, nem brincar com seus amigos, visitar os avós ou correr ao ar livre. Enquanto o número de contágios e mortes por coronavírus aumentavam com o passar dos dias e semanas de confinamento, os problemas de saúde mental também cresciam, mas de forma silenciosa.

“Um evento traumático massivo − que pode ser uma pandemia, mas também atentados como o 11M [ataques de 11 de março de 2004 em Madri] e grandes catástrofes naturais − provoca um trauma agudo, que pode atingir crianças e adultos. O fato de não apresentarem sintomas agora não significa que não apareçam nos próximos meses. As crianças estão sujeitas a um perigo invisível que provoca mortes, em uma situação de extrema gravidade, inesperada, chocante, que provoca uma reação normal do organismo no nível psicológico, e isso já está sendo registrado pelas pesquisas dos primeiros estudos que tentam medir como a pandemia está afetando a saúde mental”, assinala Abigail Huertas, psiquiatra do Hospital Gregorio Marañón de Madri e porta-voz da Associação Espanhola de Psiquiatria da Criança e do Adolescente. “A essa ameaça invisível se somam outros fatores estressantes, como a perda da rotina escolar e do relacionamento social com os amigos. Também é possível que algum familiar tenha passado a doença isolado em um quarto da casa, ou que tenha sido levado de ambulância para o hospital. Talvez a criança tenha sofrido alguma perda e não tenha podido assimilar o luto, nem se despedir, ou talvez seus pais tenham ficado desempregados, com tudo o que isso implica. Sempre assinalamos que o ambiente da criança é fundamental para sua saúde mental: se os pais não estiverem bem, as crianças não estarão bem”, acrescenta.

Embora ainda não tenha passado tempo suficiente para prever as sequelas psicológicas que a pandemia deixará, alguns especialistas já falam de uma “quarta onda” sanitária. Se a primeira onda foi a avalanche de doentes de covid-19 nos hospitais, a segunda e a terceira serão os pacientes de outras patologias urgentes ou crônicas que exigiam cuidados médicos adiados pela pandemia. A quarta onda corresponderia a uma segunda epidemia, de transtornos de saúde mental, que transformará as listas de espera em situações extremas.

Um dos primeiros estudos sobre o impacto psicológico do coronavírus, feito com 1.210 pessoas em 194 províncias da China, incluindo 344 jovens de 12 a 21 anos, revelou que 53,8% dos pesquisados consideravam moderado ou grave esse impacto, 16,5% relataram sintomas depressivos moderados a graves e 28,8%, sintomas de ansiedade moderada a grave. O principal medo (75,2% dos pesquisados) era que algum parente contraísse a doença. Outra pesquisa, feita com 4.872 pessoas na China, alertou para o perigo da “infodemia”, o excesso de informações sobre o coronavírus através das redes sociais, que aumentou significativamente a prevalência da depressão, da ansiedade e da combinação das duas. Por isso, psicólogos e psiquiatras recomendam limitar a exposição das crianças às notícias.

Confinamento e depressão

Os problemas de saúde mental têm a ver não só com o medo de um vírus invisível, mas também com o distanciamento social. Vários estudos preliminares apontam a relação entre longas quarentenas e maior angustia psicológica, que pode se manifestar como pesadelos, terrores noturnos, medo de sair de casa de que seus pais voltem ao trabalho, irritabilidade, hipersensibilidade emocional, apatia, nervosismo, dificuldade de concentração e até um leve atraso no desenvolvimento cognitivo da criança. Em 2013, a Universidade de Kentucky publicou uma análise do impacto das medidas de isolamento como controle de doenças, segundo a qual 30% das crianças confinadas e 25% de seus pais atendiam aos critérios para diagnosticar transtorno de estresse pós-traumático. Uma pesquisa recente, realizada na província chinesa de Hubei, destacou o aumento de sintomas depressivos e de ansiedade em uma amostra de 2.330 estudantes, depois de apenas 34 dias de confinamento devido ao coronavírus.

Na Espanha, um dos países com medidas mais rígidas de confinamento, os menores de 14 anos não saíram de casa entre 15 de março e 26 de abril, quando foram autorizados os primeiros passeios. O Grupo de Pesquisa, Análise, Intervenção e Terapia Aplicada com Crianças e Adolescentes da Universidade Miguel Hernández iniciou um estudo pioneiro, que analisa o impacto emocional do confinamento em crianças italianas e espanholas, através de 1.143 pesquisas com pais que têm filhos de 3 a 18 anos.

“Nosso objetivo é examinar como o confinamento afeta crianças e adolescentes, a fim de que os resultados sirvam de guia para que pais e profissionais detectem e previnam esses possíveis problemas. Os resultados indicam que a quarentena imposta devido à Covid-19 afeta psicologicamente as crianças. Embora tenham grande capacidade de adaptação a novas situações, parece que não têm habilidades suficientes para enfrentar a situação de confinamento vivida na Espanha sem se afetar emocionalmente”, afirma Mireia Orgilés, uma das autoras do estudo, que posteriormente incluirá também dados de Portugal.

Nove de cada dez pais relataram mudanças no estado emocional e comportamental de seus filhos, em comparação com antes da quarentena. “Além disso, os hábitos também mudaram: 25% das crianças passaram a comer mais do que o habitual, 73% usaram dispositivos eletrônicos mais de 90 minutos por dia, em comparação com 15% que faziam isso antes da quarentena, e apenas 14% praticavam 60 minutos diários de atividade física, que é o recomendável segundo a Organização Mundial da Saúde”, assinala Orgilés. Diferenças nas medidas de confinamento, segundo sua pesquisa, fizeram com que as crianças espanholas ficassem mais afetadas psicologicamente do que as italianas.

Ansiedade e trauma

Na Espanha, os serviços de saúde mental já atendiam 30% da população infanto-juvenil antes da pandemia. Nos próximos meses, será possível verificar se as previsões negativas serão confirmadas e se essa proporção aumentará. Antes que isso ocorra, várias associações e sociedades científicas de psiquiatria e psicologia já fizeram um apelo ao ministro espanhol da Saúde, Salvador Illa, para que a saúde mental de crianças e jovens não seja negligenciada, como até agora.

Jovens com psicopatologias anteriores e crianças sob medidas de proteção dos serviços sociais, que já viviam situações desfavoráveis de pobreza, violência intrafamiliar, depressão ou consumo de substâncias psicoativas, são os mais vulneráveis. Em um seminário pela Internet organizado recentemente pela Associação Espanhola de Psiquiatria da Criança e do Adolescente, a doutora Itziar Baltasar, psiquiatra da Unidade de Adolescentes do Hospital Gregorio Marañón, o segundo com mais atendimentos de Madri, descreveu como a pandemia forçou um reajuste no funcionamento dessa unidade, onde não podia ser oferecido nem mesmo conforto físico a pacientes jovens com instabilidade emocional.

Adolescentes com quadros depressivos prévios, que não tinham tido contato anteriormente com o serviço de saúde mental, necessitaram de hospitalização durante o confinamento, enquanto outros, que não tinham psicopatologias prévias ou apresentavam sintomas depressivos subsindrômicos, desenvolveram patologias graves como resultado da pandemia. Se antes podiam se distrair dos pensamentos negativos saindo com amigos ou praticando esportes ou atividades culturais fora de casa, o confinamento fez que suas preocupações e sensação de isolamento se multiplicassem. Da mesma forma, os serviços de emergência do hospital detectaram um aumento de tentativas de suicídio por precipitação. “Enquanto que no ano passado inteiro recebemos dois ou três casos, nas últimas semanas tivemos quatro pacientes, inclusive pacientes que não tinham contato anterior com o setor de saúde mental”, assinala a psiquiatra.

Como diferenciar tristeza e ansiedade normais, que desaparecerão de forma natural, de traumas e sequelas de longo prazo? A doutora Abigail Huertas lembra que “só se fala de transtorno depressivo ou luto traumático depois de alguns meses, com sintomas que se prolongam no tempo ou limitam o desenvolvimento normal de sua vida”.

O transtorno de estresse pós-traumático costuma estar ligado a um trauma vivido em primeira pessoa pela criança ou a um trauma indireto, quando ela reflete um traumas vivido por seus pais, como o que podem ter sofrido os profissionais de saúde, por exemplo. “Distingue-se porque aparece mais tarde, depois que passam alguns meses. Além de tristeza e ansiedade desproporcionais, ocorrem visões de eventos traumáticos, ou seja, surgem lembranças ou flashbacks que as invadem e paralisam, a ponto de não poder seguir em frente com sua vida nesse momento. Provoca lembranças invasivas, insônia, irritabilidade, bloqueios emocionais e comportamentos esquivos. Por exemplo, crianças que não querem pisar na casa de seus avós falecidos porque evoca lembranças, ou não querem nem se aproximar do telefone porque ficaram chocadas ao ver sua mãe gritando e chorando quando recebeu um telefonema sobre um familiar falecido”, aponta a doutora Huertas.

Levará tempo e exigirá ajuda profissional, mas os psiquiatras e psicólogos esperam continuar criando uma rede que mantenha a saúde mental dos mais jovens. Até agora, os terapeutas têm se dedicado a registrar recomendações para seus próprios pacientes, fornecendo também estratégias e ferramentas para que os pais possam ajudar crianças e adolescentes com vulnerabilidade prévia. Também estão em contato com pediatras e médicos de atenção primária, para que detectem o quanto antes os primeiros sintomas. “A tristeza, o medo e a raiva são normais, mas caso se detecte que essas emoções são muito intensas ou prolongadas no tempo, nossa recomendação é que nunca seja negligenciado o sofrimento emocional de uma criança”, conclui a doutora Huertas. Se um adolescente diz que quer morrer, ficar em silêncio ou fingir que não há nenhum problema não ajuda. Podemos lhe perguntar do que precisa, se há algo que possamos fazer ou deixar de fazer para que se sinta melhor − sem obrigá-lo a falar, mas sem ignorá-lo −, incentivá-lo a praticar esporte, a sair com seus amigos, a desenvolver sua criatividade. E sempre que tivermos dúvidas devemos consultar um profissional, porque em saúde mental também é melhor prevenir que remediar.

 

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