24 de Maio de 2018
No Brasil, 11,5 milhões ainda não sabem ler e escrever, segundo IBGE

Veículo: 
Correio da Paraíba

A escola onde Wagner Pereira, de 10 anos, não tem biblioteca, laboratório de informática ou de ciências. A tinta que desbota e cai aos poucos junto com o reboco do muro e a grama que cresce no espaço destinado ao lazer dos alunos é sinalizam mais que a necessidade de uma reforma, mas o lugar que a educação pública ocupa na lista de prioridades de quem tem o dever de cuidar dela. Em 2017, foram mais de R$ 200,5 milhões, destinados à educação, repassados à Paraíba somente pelo governo federal. Na escola onde falta o básico, difícil é esperar ensino de qualidade e os resultados disso aparecem. Na Paraíba, onde só 6% dos estudantes saem do ensino fundamental sabendo os conteúdos básicos de matemática e 19% deles conseguiram aprender o mínimo da língua portuguesa.

“Eu queria uma escola onde ele pudesse aprender de verdade. Até o ano passado, quando ele estava em uma escola particular, a gente ainda via alguma mudança. Esse ano, está muito devagar. Mas, foi o jeito colocar ele aqui. Era mais perto de casa e minha filha não tinha mais condições de colocar ele na escola particular”, disse a aposentada Rsailda Pereira, avó de Wagner. Ela contou que a filha ficou desempregada e por isso não pode mais pagar o colégio para o garoto.

O acesso à educação é direito constitucional garantido também pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, o país parece está longe de um futuro onde esse direito. Afinal, são 11,5 milhões de pessoas que ainda não sabem ler e escrever, segundo última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

“A falta de recursos financeiros disponíveis, por exemplo, é um problema patente para municípios paraibanos como Pedras do Fogo e Juru, que em 2015 dispunham de menos de R$ 225 por aluno/mês para investir na Educação Básica. Esses municípios praticamente só têm os recursos do Fundeb para financiar a Educação - e 60% desses recursos, na Paraíba, não são suficientes para cobrir o piso salarial do magistério”, lembrou o coordenador de Projetos do Todos Pela Educação, Caio Callegari.

“É fundamental que haja uma qualidade técnica da burocracia para concretizar o dinheiro em insumos, e os insumos em resultados de aprendizagem dos estudantes”. Caio Callegari, Todos Pela Educação.

No que se refere à aprendizagem, a maior parte dos alunos do Ensino Fundamental apresenta carência no entendimento dos conteúdos relacionados à Matemática. Enquanto o percentual médio dos alunos, no País, que saem do 9º ano aprendendo o adequado nessa disciplina para essa fase da escola é de 14%, na Paraíba é de 6%. O representante do Todos Pela Educação aponta que para sanar essa dificuldade, que é sistêmica, é preciso pensar mudanças para a educação básica em todos os ciclos, desde a educação infantil até o Ensino Médio. “Nesse caminho, precisamos de foco em garantir um atendimento integral multi-setorial dos 0 aos 5 anos de idade,  financiamento ampliado, melhor distribuído e melhor aplicado, infraestrutura escolar digna e acolhedora e, por fim e o mais importante,  professores bem preparados e motivados, com apoio pedagógico e condições de trabalho dignas”, complementou Caio Calligari.

Tecnologia – Se faltam livros e materiais básicos para as atividades escolares, o acesso à tecnologia também é outro entrave para a educação pública. No Brasil, segundo dados da plataforma Qedu, somente 50% das escolas do País possuem acesso à internet e são, em média, seis computadores para cada estabelecimento de ensino público. Para a professora e pesquisadora do curso de Educomunicação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Janaíne Aires, a inclusão digital é um passo importante para a cidadania e para o combate às desigualdades sociais.Fonte: Prova Brasil 2015/Inep/ Qedu

“A ausência de estrutura é mais um dos obstáculos que se apresentam na incorporação das novas tecnologias nos modelos educacionais. Lembre-se que há menos de 15 anos nem mesmo o livro era uma tecnologia totalmente difundida em nosso país. Foi preciso consolidar e articular diferentes políticas públicas para que isto acontecesse. Exigimos computadores em escolas que ainda não contam com tecnologias mais básicas a exemplo do papel higiênico, da água encanada, de ventiladores. Precisamos nos perguntar se estamos apontando para o caminho certo de aproximação entre educação e tecnologia. Cabe refletir porque chegam em nossas escolas câmeras de vigilância mas não chegam câmeras fotográficas que apoiem as atividades pedagógicas, que promovam o protagonismo juvenil, que estimulem a criatividade, que reforcem habilidades? Porque naturalizamos somente a tecnologia para promover o controle e a vigilância? Sem dúvidas, há uma questão de classe que precisa ser discutida”, comentou a professora da UFCG.

Ela lembrou ainda que a medida em que essas tecnologias de promoção digital cheguem às escolas é preciso preparar os educadores e muni-los de capacitação e conhecimento para que saibam a melhor maneira de utilizar as ferramentas como aliados nas atividades do dia a dia escolar. Na visão da pesquisadora, a implantação da tecnologia nas escolas é mais um desafio a ser superado no nosso modelo educacional e passa ainda por reflexões sobre a origem da obtenção dessas ferramentas e softwares, como a desvalorização do que é produzido localmente.

“Depois creio que precisamos mobilizar educadores em torno de ferramentas livres. Sistemas operacionais e softwares livres são instrumentos importantíssimos para articulação de novos métodos e para a incorporação das novas tecnologias na sala de aula. Acrescenta-se ainda a importância de adotar novas linguagens no ensino e na formação das próximas gerações. Estas linguagens vão desde a programação até os pixels. É preciso entender os pixels. Os desafios são imensos, precisam e podem ser enfrentados mesmo que faltem os equipamentos”, frisou Janaíne Aires.

Instituições desenvolvem projetos

Se a escola caminha, muitas vezes, somente com o empenho dos professores e estudantes, projetos desenvolvidos por entidades filantrópicas apóiam a educação na rede pública, entre as quais estão o Instituo Ayrton Senna e a Fundação Itaú Social.

Com iniciativas de incentivo à leitura e de formação de educadores, a Fundação Itaú Social apoia projetos em todo o País e desenvolve ações também na Paraíba. Para a gerente de Pesquisas e Desenvolvimento da Fundação, Patrícia Mota Guedes, é preciso pensar a escola como um local fundamental para o desenvolvimento não só dos alunos, mas também dos professores. Mas, para isso, é preciso que os gestores busquem e proporcionem esse ambiente mútuo de aprendizagem.

“Entendemos que a formação docente é uma peça chave para que essas propostas curriculares, criadas ou adaptadas à luz da Base Nacional Comum Curricular, se tornem práticas no dia a dia da sala de aula e que garantam a equidade tão almejada. Nosso entendimento é de apoio, de contribuir, porque os protagonistas são os gestores públicos e os profissionais das escolas”, destacou Patrícia Mota.

Por sua vez, o diretor do Instituto Ayrton Senna, Emílio Munaro, destacou a necessidade de uma educação de qualidade para uma escola o desenvolvimento das habilidades socioemocionais dos alunos.

“Hoje, 65% dos alunos q estão estudando atualmente, daqui a algum tempo não sabem qual a qualidade do emprego que eles vão ter. Nós precisamos preparar esses jovens com as habilidades cognitivas que o dia a dia da escola nos prepara, mas tão importante quanto é desenvolver as habilidades socioemocionais, porque são elas que vão direcionar a formação desse aluno enquanto ser humano integral”, frisou Munaro.

Em um País onde somente 45% dos alunos, na faixa etária dos 6 a 8 anos, estão alfabetizados, segundo os últimos resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização, o representante do Instituto Ayrton Senna lembra que esse processo deve receber uma maior atenção dos gestores públicos, uma vez que as carências dos alunos apresentadas nessa fase da educação básica, se não sanadas, poderão se refletir nas séries seguintes.

“Em várias cidades do País nós desenvolvemos dois projetos de apoio à alfabetização, o ‘Se Liga’ e o ‘Acelera’. O primeiro tem como foco resgatar a alfabetização dessa criança e mais do que isso, trazer todos os componentes socioemocionais que esse aluno precisa. Na hora que esse aluno aprende, ele fica mais confiante e se vê pertencente à escola. Temos que preparar esse professor para a alfabetização, mas não é fácil. É aí que o Instituto oferece esse apoio. Temos que resgatar a deficiência idade/série, que é o objetivo do ‘Acelera’”, explicou Emílio Munaro.

O Instituto defende que deveríamos ter escolas em tempo integral e com ensino em tempo integral, que ensinem a esses alunos a ter projetos de vida. Se nós adotarmos a combinação de modelo eficiente unindo habilidades cognitivas e socioemocionais, juntos a gente consegue fazer essa transformação na alfabetização em três anos. Emílio Munaro, diretor do Instituto Ayrton Senna.

 

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