23 de Abril de 2018
Escolas usam jornais para ensinar senso crítico às crianças

Veículo: 
Folha de S. Paulo

Aos oito anos, Luiza do Vale já diz o que vai ser quando crescer: jornalista.

Aluna da escola estadual Henrique Dumont Villares, no bairro do Jaguaré, em São Paulo, ela conta que o que acha legal na profissão é poder descobrir coisas interessantes e contar para os outros.

Foi assim na reportagem que ela leu e mais gostou até hoje: ela explicava como os astronautas fazem suas necessidades no espaço. Leu a história no Joca, jornal para crianças que sua escola usa em sala de aula desde 2015.

Luiza até montou seu próprio jornal, escrito a mão em folhas de sulfite dobradas e ilustradas por desenhos seus: “Criei um jornal para mulheres. Coloquei notícia do dia da mulher, maquiagem, meninas daqui”.

A escola dela é uma das 150 que recebem o jornal a cada 15 dias (120 privadas e 30 públicas). A publicação traz notícias sobre o Brasil e o mundo, ciência, tecnologia, esportes e curiosidades.

A capa da edição 111, que circula na segunda (23), trata da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Stéphanie Habrich, 47, editora-executiva do Joca, diz que a publicação traz notícias reais, presentes em jornais de adultos e que já estão no dia a dia das crianças.

A diferença é que o jornal infantil adequa o texto para a idade das crianças e dá o contexto para que elas consigam entender as notícias.

O Joca não dá opinião em suas reportagens, mas busca mostrar às crianças diferentes visões sobre um assunto. Com isso, Habrich diz que quer tornar as crianças leitoras com visão crítica. “Isso muda o futuro”, afirma.

Ela diz ter optado por uma publicação impressa pelo fato de o formato permitir que a criança faça anotações nas páginas. Para os maiores, o Joca tem site de notícias e canal de vídeos.

No Henrique Dumont Villares, os jornais dividem espaço com os livros de história e geografia, conta a coordenadora pedagógica, Nadia Brocardo, 50. Ela diz que a vantagem dos jornais é que eles despertam mais interesse do que livros didáticos tradicionais.

“Quando se usa o jornal para falar de algo que está acontecendo, como a guerra da Síria, você pode engajar mostrando a história do país, a localização, os motivos do conflito”, afirma Nadia.

Murilo Pereira, 8, lembra bem de ter lido sobre o assunto. Foi o que mais o emocionou entre os trazidos no jornal: “Fiquei feliz porque 31 mil refugiados voltaram para a Síria e estão vendo como ficou [o país] depois da guerra. Mas fiquei triste porque as casas de muitos foram destruídas”.

Brocardo conta que a escola melhorou seu índice no Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo, que considera o desempenho em provas oficiais e índices de aprovação) desde a adoção do Joca. Em 2014, sua nota foi 5,7. Já em 2016 a escola atingiu 7,7.

Por ano, a assinatura do Joca custa R$136 por aluno. As escolas públicas o recebem a partir de doações.

A escola Henrique Dumont Villares, que tem 804 alunos do 1º ao 5º ano, do ensino fundamental, recebe 200 cópias de cada edição do jornal.

Os professores de revezam no uso dele e alunos com boas notas recebem edições antigas como premiação.

Enquanto o Joca leva às crianças a experiência de ler um jornal de papel, a empresa Guten News dá notícias para alunos do 5º ao 9º ano a partir de site e aplicativo.

Danielle Brants, 33, fundadora da empresa, diz que o meio digital permite ao professor acompanhar o desempenho dos alunos e de suas classes, verificando online quem fez cada atividade e quais são as principais dificuldades.

O jornal é semanal e traz notícias e desafios em cinco editorias: Brasil, Mundo, Ciência e Tecnologia, Cultura e Comportamento.

A motivação de Brants para iniciar a empresa, em 2015, era usar conteúdos atuais e de grande interesse dos estudantes como ferramenta para ampliar seu gosto pela leitura e expandir habilidades de compreensão de texto.

Ela também diz acredita ser possível gerar o que chama de letramento jornalístico nos jovens, o que ganha ainda mais importância por eles terem acesso a muitas informações de fontes de qualidade ruim.

“Queremos que eles saibam avaliar se uma fonte é confiável, se os dados estão sendo apresentados de forma correta. Assim, quando os alunos estiverem maiores, compartilhando notícias no Facebook, vão ler a matéria inteira, e se questionar se devem compartilhar aquilo ou não”, afirma Brants.

 Em 2016, as notícias mais acessadas no site tratavam do impeachment da ex-presidente da República Dilma Rousself (PT), do vírus da Zika e do lançamento do jogo Pokémon Go.

As assinaturas do jornal são feitas pelas escolas, a um preço que varia conforme o número de alunos e, em geral, fica entre R$60 e R$68.

O Guten News é acessado mensalmente por 46 mil alunos (incluindo assinantes e quem usa áreas gratuitas da plataforma).

Está em 51 escolas privadas pelo Brasil, entre elas os colégios Santa Cruz, Pentágono e Humboldt.

A companhia depende de parceiros para chegar a escolas públicas.

Em 2017, o Guten foi usado em 20 delas a partir de trabalho conjunto com a Fundação Lemann.

Neste ano, participa de projetos junto a associação Parceiros da Educação.

 

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Este guia integra uma série de publicações editadas pela ANDI – Comunicação e Direitos ao longo da última década, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento da cobertura jornalística.