26 de Fevereiro de 2016
Deficiência na leitura afeta outras disciplinas

Veículo: 
Diário do Nordeste

O filósofo Karl Popper afirma que “os cidadãos civilizados não são produtos do acaso, mas de processo educativo”. Por esta razão, saber se expressar – falar e escrever corretamente – também é sinônimo de inclusão social. Nesse cenário, a leitura tem papel primordial. Combater o desinteresse cada vez maior de crianças, adolescentes e jovens brasileiros pelo hábito de ler é um dos grandes desafios do País. Para especialistas, as deficiências nesse quesito impactam no entendimento de todas as outras disciplinas. No Ceará não é diferente. Segundo dados da Secretaria de Educação Estadual (Seduc), sete entre 100 alunos repetem a série mais de uma vez em três anos ou simplesmente abandonam a escola. Os números do Movimento Todos Pela Educação revelam que, em 2014, apenas 53,9% dos jovens de 19 anos conseguiram concluir o Ensino Médio. Percentual menor comparado com 2011, quando 55,8% dos matriculados colaram grau. Em 2013, foi de 54,6%. “A questão não é motivação ou desmotivação”, aponta a coordenadora de equipe do Prêmio Viva Leitura, Lourdes Atiê. Segundo a pesquisadora, avaliar a situação sob essa perspectiva é mesmo que culpar o paciente pela doença. “É um processo de construção que começa na família e, principalmente na escola. Não pode ser uma coisa imposta, ‘de vai cair na prova’ ou ‘olha o Enem se aproximando’. Não é questão de urgência ou emergência e sim de formação e de encantamento”, pondera. Mas, como encantar? Como conquistar o aluno pelo prazer da leitura? Como entender que as bienais de livros espalhadas pelo Brasil, e o Ceará também é exemplo, ficam cheias com crianças e jovens leitores em busca particularmente da literatura fantástica? “Algo está errado”, afirma Atiê. Para ela, a tarefa não é somente do professor de Língua Portuguesa. “É de todos, de mim, como mãe, como educadora, do corpo docente. Todos tem que ter encantamento, gosto, paixão pelo livro, não só o didático. Não podemos transmitir sem acreditar, sem dedicar um tempo. Isso repercute em toda a unidade, porque sem entender um simples enunciado matemático, de física ou não compreender a história ou geografia, o aluno terá problemas em todas as disciplinas”, ressalta.

Projetos
Projetos para reverter o quadro existem sim. Em escolas da rede municipal e estadual de ensino, eles não faltam. Na Escola de Tempo Profissional, Jaime Alencar de Oliveira, no bairro Luciano Cavalcante, o Círculo de Leitura é um deles. Lá, 512 alunos, de 15 a 19 anos, divididos em 12 salas, no chamado padrão Ministério da Educação (MEC), estudam das 7h às 16h40. Apesar da iniciativa, apenas 20 alunos ou 3,9% se interessam em participar. “Eles atuam como multiplicadores. A partir do grupo, a ideia é conquistar cada vez mais um número maior”, diz a professora, Patrícia dos Santos. Em toda a rede, são 63 unidades, com 1,2 mil alunos. De acordo com a coordenadora de Aperfeiçoamento Pedagógico da Seduc, Betânia Maria Gomes, a proposta é voltada para o Ensino Médio e fortalecer o protagonismo juvenil. “Incentivamos a leitura em grupo, a reflexão, o entendimento da obra, a troca de idéias sobre a mesma”, frisa. Além do Círculo da Leitura, o órgão investe na Olimpíada de Língua Portuguesa, a partir do aluno do Fundamental. “O trabalho é em sala de aula e por gênero de acordo com a série. O 5º e 6º anos é o poema. O 7º e 8º as memórias literárias e no 9º e 1º ano do Médio, a crônica. Já o artigo de opinião é desenvolvido nas 2ª e 3ª séries”, informa. Mesmo com alguns obstáculos, como a não definição de um horário específico para os jovens do Círculo de Leitura, do Jaime Alencar, a dedicação da direção da unidade faz a diferença. “Mesmo tendo que dedicar o tempo da hora do almoço para reunir o pessoal, temos observado progressos”, avalia a professora Patrícia dos Santos. O resultado é percebido de imediato. Os jovens envolvidos estão melhorando em todas as disciplinas, com vocabulário mais amplo, compreensão do que lê e visão crítica mais aguçada. “Não é pela obrigação e sim pela sensação maravilhosa que um livro nos oferece. Entendo que meus horizontes se ampliaram”, comemora Jéssica Dantas, de 15 anos.

 

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Publicação mapeia os principais riscos a que estão expostos crianças e adolescentes nas cidades-sede do Mundial 2014 e apresenta as iniciativas desenvolvidas pela sociedade brasileira para garantir os direitos fundamentais desses grupos etários.