02 de Fevereiro de 2017
Aproximação entre casa e escola para apoiar o desenvolvimento na infância ainda é desafio

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A família e a escola devem caminhar juntas para apoiar o desenvolvimento dos alunos desde a infância. Embora essa afirmação seja quase um consenso entre os profissionais da educação, a aproximação entre ambos os lados ainda é um desafio. Para romper essas barreiras, especialistas defendem que é necessário investir no diálogo. Para a doutora em Educação, Dulcinéia de Fátima Ferreira Pereira, que é professora adjunto da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Sorocaba, a escola é um lugar propício para a socialização, para aprender a conviver e respeitar o outro. "Essa é a primeira instituição que a criança participa, depois da família. Ao entrar na escola a criança passa a se relacionar com outros seres humanos. É um espaço em que ela continua a cortar o cordão umbilical."

Na opinião da especialista, é necessário derrubar os muros entre a casa e a escola, mas isso só será possível após um processo de reinvenção dessas duas instituições. "É preciso pensar uma lógica mais comunitária, inspirada em filosofias africanas e indígenas", sugere. Segundo ela, quando a criança nasce, ela deveria ser de responsabilidade de toda comunidade, "pois não se vive apenas na família ou fora dela e sim em relações diversas, que integram toda a educação."

A educação, para Dulcinéia, é o lugar de encontros humanos, de constituição de sujeitos e por isso ela julga errado destinar lugares específicos para cada aprendizado. A doutora em educação cita também a filósofa alemã Hannah Arendt, que diz que "a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar o mundo comum". A especialista conclui que a formação da criança é responsabilidade de todos os adultos de uma sociedade, seja ele professor ou não.

Para o psicopedagogo Airton Tadeu Barros Munhos, atualmente existe uma expectativa de que a escola se encarregue totalmente para a formação da identidade da criança, mas ele alerta que é necessário cuidado. "A escola pode sim contribuir com essa formação do aluno, mas cabe a ela desenvolver mais a parte da confiança e autonomia." A instituição escola, diz, é mais uma ferramenta para essa formação e uma família presente é determinante para o desenvolvimento da personalidade.

Uma criança, destaca Munhos, precisa de bases sólidas para evoluir de forma saudável. Quando a família vai mal ou tem muitos conflitos, isso reflete no aprendizado. "Hoje vemos muitas famílias que envolvem as crianças na brigas, mas é preciso lembrar que os adultos que são responsáveis por isso." No momento em que os papéis se invertem e a escola é que não dá o seu melhor, o psicopedagogo destaca que é importante que os pais estejam sempre atentos aos gestos e comportamentos dos filhos, pois uma recusa em ir para a escola, por exemplo, pode ser sinal de algum problema de relacionamento ou dificuldade pedagógica.

Integração de pais e professores é essencial

Na escolinha desde os oito meses, Maya Gama Araújo, hoje com dois anos e nove meses, tem os pais muito presentes em seu aprendizado e desenvolvimento. Rejane Gama,38, pesquisou muito antes de decidir qual local seria ideal para o crescimento da única filha e a escolha foi a Escola Chácara Viver a Vida, que possui uma filosofia humanista e busca desenvolver a autonomia e fortalecer as relações entre pais e filhos.

Rejane conta que a escola é uma extensão da família e vice versa. "Quando ela começou a aprender sobre as cores na escola, achei importante trabalhar isso com ela em casa e fui explicando já sobre gêneros, que cor é para todo mundo, menino e menina", relembra. A mãe também faz uso do método Montessoriano, desenvolvido pela médica e pedagoga Maria Montessori. Ele é caracterizado por uma ênfase na autonomia, liberdade com limites e respeito pelo desenvolvimento natural das habilidades físicas, sociais e psicológicas da criança. "O quarto dela tem todos os móveis baixos, estimulamos a brincadeira e deixamos tudo ao alcance da Maya."

A publicitária Eveline Dias Almeida, 29, é mãe de Luna, que completou um ano. A pequena ainda não vai a escola e segundo a mãe, isso deve demorar pelo menos mais um ano. "Aqui em casa estamos sempre brincando, explorando, procuro mostrar brinquedos novos, tb dou giz e lápis para ela brincar no papel e é isso que eu também espero da escola na primeira infância."

Integração

Peru, cabra, galinha, árvores frutíferas e muitas fantasias. É assim que a Escola Chácara Viver a Vida faz para manter as crianças atentas, em contato direto com a natureza e se tonando cada dia mais independentes e confiantes. A sócia proprietária da instituição, Katia Cristina Vergilio Scanavez, que é pedagoga, conta que a relação com os pais é fundamental para conseguir aflorar o que há de melhor em cada criança. "Trabalhamos junto com os pais na formação da criança como ser humano. Não temos agenda de recados, conversamos pessoalmente com cada um e eles participam das atividades."

A escola, que é do mini maternal até creche, com crianças de até cinco anos, desenvolve junto aos alunos um senso ecológico, explorando o contato com animais e alimentação saudável, além de parcerias com cooperativas para a coleta de lixo. Outro diferencial, destaca Kátia, é a matéria de comunicação e expressão, que introduz teatro e música na rotina dos pequenos.

Sem salas de aula tradicionais, a instituição, que é uma chácara na Vila Jardini, conta com salas ambiente e também horta. "Aqui o aluno coloca a mão na terra e sabe que a alface não nasceu no supermercado. Eles colhem, vão para a cozinha, ajudam a preparar e depois provam tudo que produzimos", diz. A boa relação com as famílias, lembra Kátia, é benéfica para as crianças e para a escola como um todo, pois muitos pais e mães arquitetos, veterinários, agrônomos, já ajudaram de alguma forma com melhorias na escola.

 

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