26 de Fevereiro de 2016
“Ainda não existe a inclusão de fato na educação”

Veículo: 
O Estado de S. Paulo

Em 14 anos de magistério, a professora Maria Emília Abreu, de 32 anos, já encontrou muitos estudantes com deficiência em salas de aula, mas sempre percebeu que somente e presença desses alunos na escola não possibilitava a verdadeira inclusão. “Ainda não há inclusão de fato na educação. Para isso realmente acontecer, é necessário oferecer a estrutura correta e estabelecer os objetivos corretos, para o aluno ter condições de alcançar”, afirma a docente, que trabalha atualmente no Projeto Atendimento Domiciliar, do setor de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação de Santos, no litoral sul de São Paulo. A professora não precisou de muito tempo para perceber que a inclusão na educação é conquistada por meio de mecanismos específicos, de ferramentas especializadas, e também com a capacitação de monitores e professores. “Estou neste projeto desde 2014, mas nunca havia trabalhado diretamente com estudantes com deficiência e, por isso, fui em busca de conhecimento para entender como deveria agir e o que aplicar para cada aluno”, explica Maria Emília. Após cursar quatro pós-graduações, a mais recente em Atendimento Educacional Especializado (AEE) – no campi de São Vicente da Faculdade da Aldeia de Carapicuíba (Falc) – ela deve começar ainda neste ano um mestrado na mesma área. Os resultados da educação especializada surgem quando o docente compreende a pessoa que está ensinando, sabe reconhecer as potencialidades desse aluno, e também de que forma as deficiências desse estudante têm impacto em seu desenvolvimento. Um exemplo dessa dinâmica, especialmente gratificante para a professora Maria Emília, é seu aluno Rafael de Andrade Farias, de 14 anos. “O Rafael tem a distrofia muscular de Duchenne – uma condição que provoca atrofia constante, afeta todo o corpo, inclusive a respiração -, além de um déficit cognitivo. Em nossa primeira aula, no dia 28 de abril de 2014, ele mal reconhecia as letras e conhecia os numerais somente até o nove”, conta a professora. Em 2013, Rafael frequentava a Unidade Municipal de Ensino Barão do Rio Branco, em Santos, mas sofreu um acidente durante uma brincadeira com os colegas de classe, caiu da cadeira de rodas e quebrou o fêmur. Por isso, entre agosto e dezembro daquele ano, ele estudou somente em casa, com docentes do atendimento domiciliar. No ano seguinte, o primeiro de trabalho da professora Maria Emília com Rafael, as aulas domiciliares foram diárias. E a evolução foi significativa. “Apesar de ir à escola e de ter monitora na sala de aula, o Rafael era excluído porque não havia trabalho específico. Aos 12 anos, ele nem sabia escrever”, comenta a docente. O segredo desse trabalho está no detalhe, explica Maria Emília. “Em 2015 nós reduzimos as aulas em casa para duas vezes na semana porque ele também faz fisioterapia respiratória e outras atividades na Casa da Esperança, e seria uma carga muito grande. Para ele aprender as letras e ser alfabetizado, usamos atualmente tablet e computador, porque a caligrafia, para ele, por causa da distrofia muscular, é muito difícil de executar”, diz. Em outubro do ano passado, Rafael e a professora Maria Emília foram juntos à unidade do Poupatempo, em Santos, para o estudante tirar a segunda via do RG, porque, na primeira, ele aparecia como não alfabetizado. “O Rafael assinou o documento. É uma prova que a educação correta, aplicada da forma certa para alunos com deficiência, tem sim resultados importantes”, conclui a professora.

 

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